Isto de sentir

Isto é incrível.

Esta coisa de estar vivo e poder sentir raiva. De ter a capacidade de gostar de ti. Este momento, a virtude de poder estar tão vulnerável. Poder pensar, repensar, mudar de opinião, ir de um extremo ao outro. Ficar fodida.

Isto porque quando estamos felizes, tudo é mais neutro. Preto no preto. Felicidade sob felicidade. Até que chegam as camadas de coisas sem sabor. Em tempos foi adocicado. Agora, o índice glicémico do teu espírito normalizou-se.

Daí que – só é feliz quando sabes ser triste. Quando te deixas ser triste. Quando apanhas a ressaca de ser alegre e vais abaixo. Ficas lá, com essas emoções todas, a tentar subir de novo a escada. Mas sugiro que fiques; conhece quem por lá anda. Faz amigos. Explora – nasce tanta arte desse estado de espírito.

Apercebe-te que só a condição humana te permite mergulhar em algo tão obscuro. Perverso. É poético estar triste, acredito mesmo nisso; ainda assim tenho medo das pessoas que só sabem ser tristes. Que escolhem o poço depois de o conhecerem e que largam as mãos de quem promete ajuda. Daqueles que olham o sol e tapam a janela.

O incrível é conhecer o limbo e escolher: isto poderia deixar-me na merda. Olha para mim a tender a ir pra merda. Estás ali em cima, na corda, a tentar encontrar um equilíbrio. De um lado chamam-te e do outro imploram que vás.

A sanidade depende muito destes segundos em que percebes que a escolha sempre foi tua. Não da situação, não da circunstância, não do exterior – tua. A situação nunca será sinónimo de escuro nem de cor.

Agora, diz-me tu onde queres ir. Mas mais importante: diz-me onde queres ficar.

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