São demasiadas as vezes que me relembro de puxar a saia para baixo para evitar uma boca de um desconhecido, de mudar de rua por antecipar assobios, de correr até casa por sentir que estava a ser perseguida ou de tapar o decote com um casaco para evitar comentários.
No espaço de uma semana, tenta também tu relembrar o número de vezes que os carros apitam, o número de vezes que te dizem as coisas que loucas te fariam e, até, o contacto físico que tentaste evitar no autocarro, apesar de no momento acreditares que é tudo desculpável: é bom ser elogiada, talvez o autocarro tivesse mesmo cheio e ninguém te mandou sair com essa roupa.
É preciso gritar, escrever, partilhar. Só assim saímos do circulo vicioso da habituação.
Aprendemos que nascer com mamas nos torna mais submissas nestas situações. Tens de aceitar. Afinal, sangraste e, a partir desse momento, tornas-te mulher. Ganhas passe livre para ouvir as bocas, piropos e convites descabidos. Atenção, nunca respondas. Para quê? É o maior sinal que és mal resolvida.
Não podemos compactuar com isto. É preciso responder. Reagir. Desarmar com um olhar. Deixar de o usar o “mas” como forma de compactação com a situação mas sim de outra forma:
Mas um soutien é só mesmo isso. Mas uma saia é um pedaço de tecido. Mas dançar é liberdade. Mas sair à noite é uma escolha. Mas andar sozinha deveria ser normal.
Um “não” não é sinónimo de “pede mais duas vezes e pode ser que sim”. Se me estás a agarrar enquanto me afasto, é não. Desde quando é que começamos a romantizar uma ordem e a percecioná-la como um desafio?
E tu, mulher: Nunca serás melhor do que eu por teres tido “apenas” um namorado. Nunca serás merecedora de mais amor por nunca teres ido para cama com alguém que não gostavas ou conhecias. Jamais, em tempo algum, medirás o teu valor tendo em conta situações que envolvam o outro sexo.
Por isso, vamos deixar-nos de merdas; a insegurança explora tanto esta faceta que precisamos de a matar. Rapidamente. Nunca seremos verdadeiramente livres até perceberemos que só a nossa união poderá levar ao fim destas injustiças.
E lembra-te: És bem maior do que tudo isto. Da próxima vez que pensares em levar outra blusa com medo de reações, deixa que a ideia da tua grandiosidade se plante na tua cabeça. Guarda-a, semeia outras. E se no teu caminho encontrares uma flor que acha que não podes ter tantas pétalas, não murches: rega-a também.