Um dia vais chegar. E eu não quero saber como és. Mas aqui fica a carta para o dia que menos anseio viver:
Chegaste. Sabia muito bem que era uma questão de tempo.
Estou de costas voltadas para nos atrasar. Para nos adiar. Tu sabes: é este o momento que define a viragem da vossa viagem. Mas desta vez quero controlá-lo; não me viro. Não, espero mais um bocadinho.
Achas que custa? Não. Já revivi este dia durante tantos anos. Delicio-me a atrasá-lo. Prevejo-o. Desta vez, até o sinto.
Ainda não me viste, Morte? Podes esperar mais um bocadinho?
E eu, aqui, dona do nosso tempo. É o prazer de saber que posso encarar-te neste instante. É a escolha de adiar esse instante numa troca de planeamento mental – quando é vou poder ir ter contigo? Dormir no nosso encaixe?
Calafrios. És tu, sim. Vais agora. Mas eu parei o relógio. Tira-me das costas voltadas.
Volta. Volta-me. Tira-me. Vira-me do avesso. Viro-me.
Espera, onde foste? Ainda há bocadinho te vi. E virei-me. E pintei um quadro nosso. Quero dar-to. Ser tu comigo. Nós connosco. Sou nada sem ti. És o mundo que quero habitar. Sem exageros. Tudo o que existe de bom em mim foi despertado por ti.
Não poderias ser tu. Voltei a cair. Voltei a ver-te mas eles dizem que não. Que é impossível. Já foste embora. Mas vi. E senti. E a tua patinha no meu ombro, também foi ilusão?