Dia 20 de Abril 2017
Sozinha, com três aviões para embarcar. Algumas horas de espera e um total de 12horas fechada num. É incrível como num só dia voo de Portugal para Espanha e de lá estou nos EUA e acabo em Nicarágua. É igualmente fascinante não entender ao certo como é que esta caixa gigante me proporciona a possibilidade de contar novas histórias, de viver novos capítulos.
No dia zero acabo por pisar novas terras apesar de nunca as visitar concretamente. Só sei que pisei aquele chão e inevitavelmente vejo-me a viver histórias inventadas pela impossibilidade de as tocar com os meus dedos.
Esta sensação de longevidade desperta os sentidos, em todos os sentidos da sua existência. Levam-me a pensar: o que é saber estar longe? Tenho de estar longe pra ficar longe? Viajar é fugir?
Dia 21 de Abril 2017
Da cama para a piscina, da piscina para a cama de rede. Do mar para o hostel, dos coelhos para os cães e dar colo a gatos. Tudo é incrivelmente simples. Ver abelhas a pousarem em cima de mim e não ter um ataque, ter como banda sonora constante as ondas do mar, o incrível e até agora desconhecido sabor do abacate. Conhecer esta boa realidade de trabalhar num hostel em troca de uma cama e comida. Um dia vou fazê-lo: fica prometido.
Tudo é tão incrivelmente simples e inesperadamente tranquilo que hoje só consigo enumerar isto. E mesmo nos dias que me pareçam mais atribulados, o lembrete: tudo é, de facto, simples.
Dia 22 de Abril 2017
Acordar às oito da manhã. Não custa, juro. O sol abre-nos os olhos e o calor impossibilita qualquer tentativa de voltar a adormecer. A fome é constante – talvez pela forma descontraída como as horas passam, sem saber ao certo se está na altura de almoçar ou lanchar. Inesperadamente, acabei por comer um dos melhores hambúrgueres vegetarianos de sempre. Depois fomos para uma praia (quase deserta) onde a rotina das férias quase se instalou até que fomos convidados a apanhar lixo. Ou seja, passei de um extremo ao outro, acabando a apanhar fraldas e garrafas com cheiros duvidosos pela praia. Como seria óbvio, não gostei. Mas no fim, e como sempre, a sensação é boa. A massagem no ego é inevitável mas facilmente termina ao pensar que tudo isto deveria ser normal. Apesar do civismo ainda estar longe aqui no que diz respeito ao ambiente, é bom ver um grupo que desempenha estas tarefas sem pensar muito na razão e em como se sentem – é a responsabilidade moral a falar mais alto.
A noite começa cedo com o jantar esquecido e umas garrafas de rum. Já meia embriagada, olho para cima e vejo o céu mais estrelado de sempre. O céu mais bonito. Não me lembro de ter visto algo assim, pelo menos nos últimos anos. Embriago-me de novo: de amor por tudo isto.