Diário de viagem: boa rotina

Dia 23 de Abril 2017

As manhãs já se tornaram uma rotina: tomo o pequeno-almoço com a Rita e depois vou à piscina. Ela desenrasca sempre umas papas de aveia, panquecas ou iogurte com cereais. Acordo com uma fome desmedida pois raramente jantamos. Tenho sempre fome até à hora de almoço mas já me habituei. Ela divide sempre o almoço dela comigo para que eu não gaste dinheiro desnecessariamente por isso à tarde voltamos a ter fome. Desenrascamos, também, uns cereais levados na mala, umas bananas que se confundem com plátano ou uma massa com cogumelos e milho a lembrar as refeições da Grécia. As condições não são as melhores mas o sabor é sempre o mesmo — será que o ingrediente Amor existe mesmo?

Em frente da mesa onde me sento há uma corda onde as pessoas tentam chegar de uma ponta à outra sem cair. Não somos todos uma constante tentativa de equilíbrio em mil cordas que se atravessam no caminho ou que fazemos com que se atravessem por escolha nossa? Não é isto que fazemos todos os dias apenas uma forma de tentar entrar em harmonia com os mil tipos de equilíbrios que existem e que tantas vezes se atravessam naqueles que amamos, também?

É cair constantemente e saber que só assim é que poderemos, algum dia, ficar maiores. Mais fortes. Com marcas que não nos tornam mais frios e muito menos com medo de voltar a subir à corda.

É saber que há dias que sobes a medo para a corda sem saber o que te move para partires de A e chegares a B. É nem saber se chegas ao destino e, até, nem saber o nome do destino.

É encontrar rotas diferentes a meio da viagem, confiando no desconhecido que inicialmente assusta ao ponto de nos paralisar e impedir qualquer tipo de decisão. Porém, no fim, traz a sensação mais libertadora. E é, também, escolher a corda que mais magoa no pé, num loop maçador que impossibilita a escolha da felicidade.

É um dia decidires que o corte da ferida será invariavelmente o mesmo se não decidires mudar a tua estratégia. E nesse dia, tornas-te mais novo — vivo.

O que é, então, uma zona de conforto? Poderá o desconhecido, o incerto, ser, também, denominado assim? De que forma poderia diferir do sofá que me parece confortável ao ponto de o escolher?

Há pessoas que só sabem estar no seu elemento ao viajar pelo incerto pelo que essa se torna, assim, a sua zona de conforto. A ideia de estarem em casa durante largos meses é desconfortante tal como a ideia de viajar sem destino o é para tantos outros.

Mais tarde, percebemos que ter menos também faz parte da equação. E assim nos tentamos equilibrar.

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