Diário de viagem: realidades distintas

Nunca senti tanta sede como nesta viagem. É incrível a vontade constante que tenho de beber água e no erro que não volto a cair de experimentar a da torneira. Já começo a perceber que é uma questão de hábito até deixar de pedir constantemente mais um copo de água. Assim como seria uma questão de dias até me habituar a viver na bagunça da casa da Rita. A cozinha precisava urgentemente de ser limpa, o frigorifico é uma incógnita e há ovos numa estante quando deveriam estar num ambiente frio.

Há muitos gatos vadios a pedir comida, moscas que pousam em todo o lado e um cheiro intenso a fezes dos muitos cães que circulam pela casa. De resto, nunca vi um único bicho estranho. Só mesmo sapos que decidem visitar a cozinha de noite.

Os quartos estão arrumados e cada um tem o seu espaço; de resto, são espaços comuns divididos por dezenas de voluntários que decidem viver nestas condições em troca de uma cama e de uma refeição. É incrível perceber que todos têm a mesma dedicação a pintar um mural, cortar cebolas ou a servir bebidas.

Tudo o resto não são problemas mas sim realidades. Como diz a Rita “embrace it” pois de outra forma a adaptação será extremamente complicada. É preciso saber conviver com o nojo mas manter as mínimas regras de higiene. É preciso cada um lavar a sua louça mas também haver alturas em que alguém acaba por lavar a todos sem razão aparente. É querer ir para o quarto ouvir música mas acabar por ir lá para fora conversar com os colegas. É ter vontade de dormir, ir embora ou fazer nada mas saber que viver em comunidade é um saber estar diferente que sabe bem e que, acima de tudo, vale a pena.

A troca de experiências cozinha-se e saem refeições deliciosas que são sempre feitas em doses generosas para que todos possam provar. Enquanto um alemão faz uma mesa nova, o outro faz uma limpeza a fundo na cozinha. Nisto, o espanhol está a passear os cavalos e a Rita está no bar.

Há sempre trabalho, há sempre qualquer tarefa que se possa fazer, sem pensar no que se recebe em troca pois no final do dia a maior preocupação para o dia seguinte é a de saber se trabalham de manhã ou de tarde. E o que não fariam tantos de nós em troca de um pensamento tão leve e livre de horários e obrigações?

Eles não são malucos e não querem fugir de responsabilidades. Aliás, eles estão na demanda da maior responsabilidade que qualquer um de nós tem: ser feliz.

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