-Mas então, acreditas?
-Sim… ou melhor…
Se visses o que eu vi, também poderias conseguir ter mais fé. Se percebesses a letra como nós entendemos, não terias outra opção a não ser torcer para que um dia a rotina se instale entre os nossos dedos.
Se, sem quereres, tropeçasses nas nossas conversas que nunca deixaram de ser ritmadas por risos, independentes da nossa distância corporal, até irias pedir a uma força maior pra que desse certo.
Se um dia caíres num amor que não obedece a leis nenhumas de convivência e que sobrevive à mais implacável – tempo – irás parar todas as noites na mesma rotunda, indecisa de onde fica a tua saída pois só te lembras das voltas continuas que deram por lá sem nunca escolher ao certo um rumo.
Olha que hoje chove, como há um ano atrás. Dois, três. O dobro. A estrada já teve obras. Mas olha que hoje está frio, como há um ano atrás. Dois, três. O dobro. A rotunda já tem marcas de carros. Mas olha nós aqui, como há um ano atrás. Dois, três. O dobro.
Perdemos a nossa saída, como há tempos atrás. Pior — ficamos presos num circulo e eu quero segurar um papel e riscar com a caneta um escape diferente. Longe dos já que existem, ainda mais distantes dos que achas que existem.
Vejo tantos outros que até pareces convencido a querer estudar rotas alternativas; mais: a finalmente descobrir o que está para lá do que já determinamos como desfecho.
Mas o que é um fim se ainda voltamos à rotunda, todos os anos? Todos os meses. Quase todos os dias. Às vezes, mais do que uma vez.
Quando está escuro, ainda pegas em ti e vais lá ter. Quando chove cá dentro, ainda me refugio lá. Damos as mãos e puxas-me para dentro das voltas que já conheço, por muito que às vezes te faça tropeçar pro mundo que habita lá fora.
Acredita, tenho tanto medo como aquele em que te baseias pra me justificares uma vida em formas geométricas. Mas acredita ainda mais em mim quando te digo que isto, que juro um dia poder definir, me vai despoletar sempre a vontade de tropeçar num vazio onde o medo não existe.
Sabes porquê?
Há o medo pior e esse sim, assusta-me. Ouve: morro de medo de não sairmos daqui; nunca.