Diário de viagem: dá-me uns dias

Estou tão longe, a tantos quilómetros do que conheço, do que é confortável. E como milhares de pessoas, escolhi um destino longínquo. Com que propósito? Para esquecer alguma coisa? Alguém?

Será que tudo se apazigua por não lidarmos com o mau em tempo real? Poderá a vontade de reconforto emocional ser encontrada, apenas, noutro fuso horário?

Acredito que depende tudo da nossa vontade e circunstância emocional: o quão queremos chafurdar na lama? E o quão precisamos, até? O quão queremos a cura, tendo em conta que a mesma nunca será imediata e que dependerá, na sua maioria, de nós?

Começar por criar um desapego parcial não será sinónimo de um bilhete de avião mas a verdade é que se torna mais fácil colar os pedacinhos que foram deixados de um coração outrora inquebrável noutra dimensão espacial; em falto disso, num sítio onde ninguém nos conhece e onde a língua materna não é aceite.

É complicado compreender que a nível metafórico tal poderia ser feito com o mesmo resultado: temos a capacidade de viajar dentro de nós e fazer essa cura sem a necessidade de haver um mar cristalino como pano de fundo; ou um argentino que nos coce o ego.

Estando, pois, bem longe de compreender esta forma de meditar sobre o que é esquecer o mau, também eu já usei viagens como uma justificação válida para lembrar de esquecer.

Aliás, jamais irei querer esquecer. No máximo, quero estar bem a lembrar-me. E quero lembrar-me muito, com detalhes sensoriais que me levem a sorrir sempre que o cheiro dele se esbarre no meu nariz através do perfume de outro homem. Até porque, honestamente posso saltar entre continentes que esse cheiro jamais me deixarei lembrar de esquecer.

E juro que vou sorrir quando isso acontecer; dá-me só mais uns dias.

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