Nunca foi tão fácil ser vegetariana como aqui. Ao pequeno-almoço é comum ver os voluntários a perder (ou ganhar?) tempo na preparação da refeição que pode ser ovos mexidos com legumes, papas de aveia ou panquecas de banana.
Se um prato é deixado ao acaso meio perdido na mesa, alguém o recolhe e lava sem ser preciso explicações — aqui, por outro lado, agradece-se muito. Estes gestos são feitos sem intenções altruístas, já começaram a fazer parte do ADN.
Quando era miúda, detestava abelhas. Era comum ser picada e sempre que uma teimava em voar perto de mim, rapidamente a afastava… fugindo. Para o sítio mais longínquo possível. E assim foi durante anos, um constante pânico acompanhado de gritos. Mas tudo isto tem uma explicação plausível: quando era ainda mais nova, fui picada por um bando de vespas; sim, as primas venenosas e más das abelhas! Como se não bastasse, vieram as abelhas e ajudaram-me a ter uns belos minutos de picadelas que culminaram na minha ida pra casa com duas vespas na cabeça. Se fosse alérgica, tinha morrido; como não sou, fiquei só com pavor.
Mas hoje, enquanto estava na piscina, como é comum, há muitos bichos que caem na água da piscina sem intenções de dar um mergulho ou de falecer. Ainda assim, caem. Se fosse há uns tempos, este acontecimento deixar-me-ia feliz: morram seus cabrões!
Hoje é tudo bem diferente desde que a compaixão com os bichinhos começou a crescer e agora é raro querer matar seja o que for. Se para comer tá fora de questão, de resto começo também a trabalhar a minha mente para perceber que eles merecem tanto – ou mais – coabitar o mesmo espaço que eu e que se soubessem não estariam onde estão sabendo que eu sou uma possível predadora.
Ou seja, a minha mudança extrema em relação ao que sinto por estes bichos fez-me perceber, mais uma vez, que o “nunca” é uma total ilusão. É possível ultrapassar fobias – deixei que abelhas pousassem nas minhas pernas durante o tempo que elas desejassem e auxiliei-as na tarefa absolutamente ingrata de tentarem sobreviver sozinhas mergulhadas numa piscina.
É mesmo verdade: Precisamos sempre uns dos outros, não é?