Juntar uma dose de vontade com ¼ de receio e outro de impulso da amiga e temos a receita para o dia em que decidimos subir um monte com a promessa de um por-do-sol incrível. É bom que seja dos melhores que já vi pois só algo tão poderoso me arranca do mar para subir pedras, tropeçar em calhaus movediços e trepar agarrando-me a quase nada.
Fui a viagem toda a reclamar e a meio pensei mesmo desistir. Aliás, já tinha percebido que iria fica por ali. Disse à Rita que lhe agradecia o esforço mas que aquela vista chegava perfeitamente para mim; e sim, era incrível e justificava o esforço.
Porém, se subisse mais era bom que até esse momento do dia em que o sol se despede dure bem mais do que é costume e que se atreva, até, a agradecer o meu esforço puramente para o ver.
Não sei com que palavras ou mãos a puxar por mim mas aceitei continuar apesar de as pernas tremerem e uma voz parva no meu cérebro me garantir que iria cair e partir uns ossinhos.
Cheguei ao fim. Ao cume. À conclusão. Fui presenciada com um por-do-sol bonito, sim. Mas era mais do que isso: mesmo se o sol, ao resolver gozar comigo, fosse embora precisamente segundos antes de eu chegar, teria valido a pena.
É incrível como conseguimos calar o pensamento negativo e apenas ir. Sem a necessidade de alimentar a mente com frases feitas de vitórias mas simplesmente fazendo um reset a qualquer pensamento e ir. Confiar no caminho e em quem já o percorreu antes. Não fazer perguntas e desfrutar desse caminho sem pensar no desfecho.
Depois de me ter convencido a ir, seria quimérico não criar expetativas sobre as tonalidades do sol e da sua grandeza daquele angulo mas a verdade é que se tornou uma despedida do sol mundana. Igual a tantas outras. Mas dali eu via o mar. Via todo o mar e todas as casas. Os arbustos, a arquitetura da natureza daquele país.
Não conseguia ver as pessoas mas podia contar os barcos. Se olhasse para baixo, nem conseguiria imaginar como seria o caminho para voltar a sentir a areia nos meus pés. Ali ninguém nos ouvia.
– Vamos gritar, ok?
E assim o fizemos: deixamos que todas as frustrações fossem deixadas no pico do monte onde ninguém conseguisse imaginar sequer o porquê de tantos gritos e fizemos promessas que por muito que demorem a ser cumpridas, serão sempre um inicio grato de um novo caminho que faremos em par.
– Como é que vou descer, Rita?
Ela garante-me que agora é a parte fácil. E lá vou eu, sempre atrás dela e a uma distância cada vez maior. Conseguir vê-la apesar de não ter bem a certeza do caminho que percorreu para que eu possa fazer o mesmo de modo a diminuir as hipóteses de cair, reconforta-me. Basta-me.
Ela sabe que funcionamos assim, numa química que nunca precisará do mesmo trilho mas que dependerá sempre das pegadas que cada uma faz para subirmos e descermos os vales que escolhemos percorrer. Juntas, por muito que nos percamos de vista.