Morte

Como é que no meio de tantas incertezas, percalços, dúvidas, vou-não vou, sim/não, agimos como crianças desarmadas perante a única certeza que nos é garantida à nascença?

Agora que nasceste, vais eventualmente falecer. Morrer, mesmo. Todos. Eu, tu, ele, nós. Vós e eles incluídos. O choque, o horror!

Na verdade, a morte é o que tu fazes dela. Agora, não finjas que não existe ou que um dia não se vai meter na tua vida. Aceita que é mais fácil. E, se quiseres, vai custar menos do que dizem.

Por vezes anuncia a sua chegada e entra devagarinho por tua casa. É a pior; isto porque é como se ela já tivesse encontrado um cantinho para dormir no teu lar e nem sequer quer pagar renda. Anda ali a rondar mas nunca toma uma decisão. E isto, pela certa, vai-te matando. A ti e aos outros. Quando ela acorda é como se estivesse em todas as divisões, e desaparece num ápice.

Se, por outro lado, ela escolhe fazer-te uma visita tipo amigo afastado já nem sabes onde te meter. Era tão novo. Era tão boa pessoa. Essa sempre tão tudo de bom. Era sempre O mais incrível, A mais fixe. Sim, a Morte é extremamente seletiva: não sabe estar quieta e só levar as artroses, os cancros espalhados e as demências.

Mas é que o meu pai diz-me que morrer deve ser incrível. Desumana a Morte, tira-lhe os floreados e fecha o livro da igreja católica. Diz-me que é das coisas que lhe desperta mais interesse, aposto que aceitava tomar café com ela. Pega no nosso prazo de validade e ri-se, não o quer rasgar e muito menos acreditar que temos um dia marcado para deixar de respirar e cheirarmos mal.

É a forma mais feliz de viver —  aceitá-la e rir com ela. Estamos tão habituados a vê-la de preto que deixamos que este véu a torne inimiga quando é a única certeza que nos resta quando tudo fica confuso. Será que a nossa vida foi assim tão merda para merecermos uma despedida entre memórias forçadas, choros incontroláveis pelo contexto melancólico e cenas de madeira onde é suposto eu dormir eternamente?

Quero tanto rir. Chorar de rir a relembrar o que me apetece relembrar. Aliás, relembrar o filho da puta que eras. Sim, reforçar que detestava muita coisa em ti e que nada disso me impede de sentir compaixão. Sim, nunca relembrar a doença – acredito muito disto das energias – mas sim o que eras antes e, espero eu, durante esse caminho. Não sejamos egoístas; imaginem o vosso dia D e o contexto já triste que é, para quê torna-lo pior?

O pior até é depois. Quando te vais relembrando. Quando olhas para o lado e não está ninguém. Quando começas a associar o sopro do vento à presença da pessoa. Quando choras baba e ranho. E chora. E dói, deixa doer. Mas nunca porque te encontras obrigado a sofrer. Nunca porque uma situação pega em ti e te põe num canto a chorar.

Sim, ela também te vai bater à morte. Quiçá, levar-te a explorar um outro planeta. Quiçá, viver de novo. Só podemos exigir uma coisinha, no meio disto tudo: Morte, podes levar-me enquanto durmo?

Deixe um comentário