Cheguei àquela altura em que percebi que o dinheiro não traz felicidade. Uma coisa é ler isto vez sem conta até se entranhar, outra é percecioná-la com as nossas mãos.
Tive o meu primeiro trabalho pago e uma ligeira noção de independência financeira que me permitiu pagar a minha primeira viagem: América Central.
Senti-me bem; abracei o Ego e levei-o comigo. Entretanto, deixei-o lá. Ficou esmagado com o vislumbre de uma realidade tão diferente da nossa.
Tudo era extremamente barato, para nós; brutalmente caro, para eles. Com estas preocupações, como é que lhes podemos afirmar que têm o direito a sonhar? A sonhar com o quê?
Daí que tenha entendido que o dinheiro não é – e nunca poderá ser – o motor da felicidade mas é, sim, um meio que poderá ajudar a chegarmos lá mais tranquilos.
O dinheiro não é o carro maior, é o carro; a casa, por muito pequena que seja. É as contas pagas. Só assim é que se pode ter energia mental para se gastar no que verdadeiramente nos dá gozo. Esse, sim, é o maior luxo que não dá para comprar.
Voltei sem dinheiro e trabalhei mais uns tempos. Percebi a velocidade com que o meio que faz rodar a terra foge das nossas carteiras e no quão pequenos nos tornamos sem ele; ainda assim, continuo a só querer o suficiente para não me afogar em problemas com as finanças. O suficiente para um bilhete de avião duas vezes por ano. O suficiente para pensar em mais coisas do que nele.
Em miúda jurava que ia ser rica; garanti aos meus pais três casas diferentes. Ia ser chefe, não sabia bem de quê.
Hoje quero ser feliz, como o digo repetidamente. Porém, quem quer ser rico e vê isso como a forma de chegar à felicidade também possui toda a legitimidade para percorrer esse caminho. Os fins são e serão sempre iguais. Quem somos nós para garantir que a felicidade de bens materiais é falsa? Que esse caminho é imoral? Se for feito de forma justa, de que forma irei eu provar que aquela felicidade é errada?
Comigo, creio que não resultaria. Contigo, pode ser a resposta. É fácil criar uma moral nascida à pressa quando temos epifanias espirituais mas mais fácil se torna pregar uma verdade nossa como se fosse absoluta, como se a razão morasse, finalmente, connosco.
E volta o ego, quando estava tão bem adormecido; esmagado. Levem-no a viajar. Mostrem-lhe coisas diferentes. Queiram o bem de todos. Calem a primeira palavra de julgamento que queira sair pois é um veneno que se espalha rapidamente.
Substituam-na por um sorriso e uma vontade genuína que o outro seja sucedido, por muito que a sua verdade seja a nossa mentira.