Amy Winehouse

And I said: no, no, no.

Também eu disse, quando ouvi pela primeira vez uma música da Amy. Detestei. Era o hit Rehab que explicava, em grande parte, a queda fácil de uma miúda que só queria cantar e não sabia lidar com os seus demónios.

A ambição desmedida do pai traduzida numa vontade maior que ela continuasse a trabalhar em vez de se curar e a falta de uma rede de apoio que tomasse conta da situação, foram alguns dos fatores determinantes para um desfecho previsível; dizemos nós, que estamos de fora.

Tirem-lhe os vícios e os mitos criados à volta de uma estrela (e o quão fácil era alimentá-los, não era?) e ficamos com uma miúda crua, com uma frontalidade distinta num circo que produz pessoas de plástico e sons que se confundem com música.

Ela era história em construção; era letras de um coração despedaçado que quase quer continuar nesse estado de forma a alimentar uma arte que precisa de estados melancólicos.

Talvez tenha sido aí que me apeteceu conhecer melhor aquela rapariga que cantava jazz & blues quando eu nem sequer apreciava esse estilo. Apercebi-me que existia uma lírica muito própria que acabou por criar uma revolução dentro de mim.

Queria ouvir mais. Queria ouvir tudo.

No meio dodescartável, encontramos uma Amy facilitadora de piadas por causa do seu nome e acontecimentos; mas porra, ainda era mais fácil criar empatia por ela.

Do meu lado, sempre foi fácil gostar de quem quer saber lidar com o negro através da escrita; se ela incorpora isso em junção com a música, era sinal que tinha encontrado a minha paz.

Durante muitos anos soube lidar com os meus próprios demónios através dos versos dela; também soube mergulhar demasiado tempo neles tendo como estimulo aquilo que ela eternizou em música.

Eu queria mais; queria mais de uma miúda que começou a dar demasiado sem vontade de o fazer. Passou da arte para a obrigação. Passou da música para o espetáculo. Passou da mensagem para a polémica.

Deixei de querer mais; alias, só desejava dar-lhe um abraço e ajudá-la, torná-la minha amiga. Dizer-lhe que percebo, pelo menos.

Entre a dúvida de um suicídio ou de uma overdose por negligência, fica o que realmente importa: música que poderá ser ouvida por gerações que nunca a irão conhecer.

Vivemos demasiado encostados às ideias pré-concebidas que formamos dos outros, escolhendo quase sempre a história mais sádica para trazer algum tipo de emoção às nossas vidas cinzentas.

Conselho: Ouçam-na. Não deixem de ler nas entrelinhas uma luta que durou anos; levem-se pela letra que explica o fim pois ela foi avisando. Conversem com ela, está lá tudo.

E agora vou fazer o mesmo. E retiro a lição de tentar perceber os meus, com a permanente vontade de descodificar o que se passa de mais negro com eles pois há lutas que só se vencem de forma partilhada, por muito que a nossa ação possa parecer limitadora.

Nunca é.

Cheers, Amy!

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