Hoje, ouvi um menino a dizer:
Tu não estás, eu é que estou, tu não estas, eu é que estou.
Quis perceber em que contexto se encaixavam aquelas palavras. Comecei então, a tentar desvendá-lo. Aliás, não vou subestimá-lo por ter menos meia dúzia de anos do que eu, por ter uma imaginação muito fértil. Aliás, vou admirá-lo. É capaz de ver uma árvore e jurar que viu uma pessoa com ramos a vestir umas calças. Engraçado, não?
Podia ter voltado atrás e pedir com muitas maneiras ao avô para falar com ele. É certo que se afastaria de mim. Mas, e se?
Os “ses” invadem-me sempre a cabeça. Este mar de questões sem resposta. Mas, já estou longe dele.
Sento-me num banco e escrevo no bloco de notas que nunca me foi útil até agora: Tu não estás. Eu é que estou. Será: tu não estás feliz, eu é que estou? Eu é que vejo o mundo a sete dimensões onde a cor azul beterraba cinzenta é possível. Cheiro o ar de inverno, cheira a frutos de montanha do céu, com uma pitada de doce de açúcar. Ouço o vento a falar com as árvores, e pelo que percebi, a árvore já teve melhores dias.
Será que este menino conhece esse mundo e nós, ignorantes, teimamos em calar-lhe um mundo onde existem sete dimensões à sua espera e onde as sestas não existem? E se o menino quer relatar ao avô o que se passou?
Mas o menino falava alto. Daí, eu o ter ouvido.
Será, então, que o menino quer gritar aos ventos o que viu? O que vive? Será que sabe que o fim dos seus dias no seu mundo estão a chegar? E tal como os homens ditos malucos que podem jurar que o fim está perto, este pequeno rapaz está, de facto, a tentar avisar-nos que o fim da nossa imaginação está a chegar? Que temos o dever de alimentar o nosso cérebro com loucuras e surrealismo? Que vamos todos acabar por cair na realidade, sem a pintar com azuis beterraba? Que o diálogo do vento com as árvores vai passar a ser apenas o vento a abanar as folhas?!
Que todos aqueles recursos estilísticos que nos dão tanto prazer usar, aquelas deliciosas metáforas, vão perder o seu sentido?
Tal como nós perdemos pois houve uma altura que jurávamos ser como ele. Hoje essa memória escasseia. Aposto que, tal como nós, o menino vive essas tais metáforas e grita com medo que elas escapem.
Aposto, também, que quem um dia se lembrou de inventar a metáfora, era uma pequena criança que teimava em dizer: tu não estás, eu é que estou.