Mais riso, por favor

Temos tanto medo de rir da criança doente e da fome pois, sabe-se lá, um dia ainda sentimos essas coisas na pele. Imagino sempre as doenças em formato de bonecos gigantes a tocarem-nos à porta:

– Ó menina, já sabe como funciona. Riu-se de nós, claro que vamos entrar no seu sistema imunitário.

A ideia de que só rimos porque a situação está a uma distância confortável morreu. Aliás, lido comigo todos os dias; se não me risse dos meus demónios não havia equilíbrio mental nesta confusão que sou eu.

Confundimos humor com respeito e temos medo do poder do humor.

Olhem, eu prefiro não ter respeito por extremismos. Faz-me confusão ver o 8 ir ao 80 de rajada. Faz-me impressão ver uma ideologia ser uma plasticina tão boa e saber que há pessoas que a escolhem para o mau e para o feio. Ainda assim, o que mete mais nojo, é ver a ignorância a fervilhar quando se está na presença de um contexto humorístico. Ou seja, qualquer contexto, se eu assim entender. Quando custa muito separar conceitos. Quando rir é uma dor de cabeça. Quando querem proibir a minha gargalhada ou dar-lhe olhares de de reprovação.

O humor é uma arma incrível, capaz de resultados difíceis de medir e tão utópicos de momento: aproximar; fazer-nos ver que somos feitos da mesma massa. Celebrar as diferenças com aquilo que nos desarma e põe o ego no canto.

O humor é o teu pensamento subconsciente e aquilo que dizes a ti mesmo antes de dormir. Fala por ti quando tens medo. Os teus risos nervosos deviam ser gargalhadas — é isso que está errado.

Há melhor forma de desconstruir aquilo que dói? De torná-lo pequeno? Será que podemos fazer com que certos assuntos desçam desse pedestal intocável, que lhes confere um poder falso?

Eu quero rir-me dos pretos, dos brancos, dos cancros, da pedofilia; porque não é tabu nenhum, porque ao rir-me não contribuo para mais pedofilia nem cancros. O alvo da piada é confundido e daí surgem os ataques e as ameaças de todas as cores e feitios.

O humor é para mentes abertas, evoluídas; só essas entendem que tem de haver uma segunda leitura do que é uma piada: o alvo é mesmo a criança indefesa ou a doença em si, que é uma vaca? Ela merece assim tanto o meu respeito? Não. Aliás, não me revejo em noções de respeito.

Vou continuar a rir-me, sim. Não estou a contribuir para uma realidade terrível mas sim para o fim da terrível mania de acharmos que há coisas que não são para brincar. Que há assuntos que são tão feios que mais vale deixar ali, no escuro.

Não é a solução mas alivia. Não resolve o problema mas dá-lhe voz. Não peço que te rias. Não quero que haja um facilitismo pro riso só porque o assunto faz comichão. Não é isso. Imaginem um mundo onde qualquer humor é aceite: só seria necessário compreender que há quem se ria.

E, agora, uma novidade: vamos todos morrer. Enquanto ris, até te esqueces da única certeza que algum dia terás.

A liberdade que eu tenho para me rir é a mesma que tu tens para condenar o meu riso. E agora, ainda queres calar-me?

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