Avançamos dez anos na história. Tenho 33 anos.
Estou na baixa do Porto, sozinha. Vim à procura de roupas de bebé porque mais uma amiga está grávida.
Faço parte do reduzido grupo que teima em não querer ter filhos — bem pelo contrário, tenho um gigante receio de ter um ser que dependa de mim dezoito anos na teoria mas muitos mais na prática.
Aliás, egoísmo é ter um filho: a necessidade de ter algo a que chamamos ‘nosso’ é bem maior do que qualquer ato altruísta que possa ser visto desse ato; ele nem pode escolher nascer.
Como é que enaltecemos algo que faz parte da ordem natural das coisas? São vontades biológicas e algo que necessita de ser feito para manter a estabilidade populacional.
Ter um filho? Não é nosso. Denominá-lo dessa forma só demonstra o vinculo fechado pro mundo e aberto para nós mesmos. Deixamos de ter vontades próprias pois tudo é feito com o fim do bem-estar do miúdo. Os sonhos são postos de lado porque não há forma de voltar atrás e decidir não o ter mais tarde.
E ainda assim, vejo o egoísmo: passamos a gostar tanto dele que nenhum amor se equivalerá. E não fazemos de tudo para proteger quem mais amamos? Mesmo que essa pessoa não tenha razão?
O amor cega-nos. Este não é exceção.
“Vais ficar para tia”, com todo o gosto.
Mas como te vês daqui a 10 anos?
Ia responder feliz, mas depois percebi que ia cair na repetição; queria falar das minhas aspirações financeiras mas não as tenho para além de desejar viajar quando me apetecer. Poderia, até, imaginar um casamento e, na loucura, filhos. O desejo da certeza de te ter ao meu lado fica preso na resposta, também.
Quero ser confiante. Não ter medo de palcos. De opiniões. Não me moldo a criticas sem substância. Não me foco no errado mas sim no que carrego de bom. E daqui a dez anos deve ser ainda mais linda do que sou hoje. Admitir isto soa a crime, sabes? Mas no fundo, sei; sei que sou incrível. Que posso ser o que quero ser.