É pena não conseguir aguentar mais de uns meros segundos em ti. É pena não ter a capacidade de o fazer mesmo não estando entornada em ti. No limbo do mergulho é onde vivemos — ainda não me deixei ir com o cérebro cheio de nada mas também não deixo que o entulho da sociedade me consuma ao ponto de ter de ir abaixo.
O corpo está dentro. O que me move ainda não. A boca já respira dentro de água com o nariz à toa e os olhos bem observadores.
A melhor parte: deixar que os ouvidos se tornarem surdos depois de ter engolido tanto barulho disforme.
Aqui, sei viver. Não tenho como responder: a boca está dentro de água. Não tenho como ouvir.
Mas ainda vejo. E, por isso fecho os olhos, esquecendo de os mergulhar também. Já se torna demasiado perigoso não ter qualquer controlo. O auto e o deles. O da situação. Não saber bem o que se passa. Será que vem agora um miúdo contra mim? Vou bater no degrau da escada? Alguém me está a chamar?
Deixo os olhos irem também. Abrem-se como defesa e só vislumbram azul. O cérebro lembra-se de pensar: tens de subir, não aguentas muito mais.
Pois não. Não sei mesmo viver mergulhada, vazia. Sem eles, sem fiscalização do que me rodeia.
Mas um dia aprendo a morar entre as minhas margens. Com sorte, apareço a boiar.