Férias

Sozinha no meio do buffet que abrange todo o tipo de comida que recolhe à pressa com o intuito de preencher um vazio qualquer que a consome; mas pior, já nem dá conta dele.

A sobremesa é a mesma do dia anterior e sabe a nada. Mas come-a, um dia vai ganhar sabor. Um dia o vazio será preenchido — se não for com cacau, ela encontrará outro refúgio.

Ali é anónima. Uma hora depois, é obrigada a sorrir. A vender pacotes de férias. A aconselhar o jipe. A vender sonhos. A ver a felicidade estampada na sua frente mas que parece nunca funcionar no espelho; o mesmo que ela já arrumou com medo de encarar o corpo mais redondo, fruto da sobremesa diária que teima em cobrir algo mais do que é palpável.

Ao seu lado, o casal que se esqueceu do amor por volta do sétimo aniversário do filho. A rotina é insípida em casa e há a necessidade mecânica de criar uma nova em férias. Acordam, comem. Não falam. Já tudo foi dito e o divórcio aparecerá. O miúdo só tem memórias disto, não sabe pintar o amor num quadro. Não sabe bem o que é união e só dá a mão ao pai porque sabe da consequência se não o fizer.

Mais à frente, o casal de idosos. Sem grandes preocupações a não ser perceber se a calda da maçã assada leva açúcar. Não o podem comer. Mas continua a haver o vazio por preencher. Revêem-se no casal. Eram assim. Juraram nunca o ser mas chega o dia em que o sofá é mais apelativo e o conforto de conseguir pagar a casa ao fim de cinquenta anos só desperta um alivio e não a vontade de ir mais. Fazer mais.

É uma vida a trabalhar para conseguir respirar fundo. Uma vida a trabalhar para ter coisas, chama-las de nossas; uma propriedade que tem mais valor do que qualquer tipo de sonho que foi encostado na prateleira. À frente vieram os filhos. Depois outra desculpa. Depois, e finalmente, esqueceram-se deles mesmos. Às vezes arrumam o pó e fazem estas viagens; daqui a uma semana arrumam-se.

Quando é que nos deixamos ser assim? Quando é que a premissa de nunca o sermos deixou de ser batalhada? Em que bater dos ponteiros é que se nos declaramos vencidos?

E eu observo tanto. Juro nunca o ser. Entretanto, vou ver se hoje há ovos mexidos. Ontem foi dia de omelete.

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