Folha de papel

Não sei se acredito em vocações, em termos nascido com um propósito em termos profissionais, de inconscientemente termos uma direção precisa que vai sofrendo atropelos porque deixa de ser ouvida. No entanto, caio num paradoxo muito rapidamente pois não me imagino a fazer mais nada a não ser: escrever.

Era eu uma criança muito inocente e toda arco-íris quando comecei a fazê-lo. Pediam-me reflexões; eu recheava aquilo de personificações. O sol era uma pessoa e as nuvens eram o seu inimigo. Nisto começava uma batalha com o vento e o plot twist era sempre inacreditável.

Por alguma razão os meus textos lá foram despertando a atenção da professora. Será que dava adjetivos à relva que mais ninguém dava? Juntava as palavras de forma peculiar? O que era? Aliás, o que define um texto considerado “bom” e o que o separa de um texto “mau”? Certo é que era a minha atividade preferida desde que aprendi a juntar letrinhas com mais letrinhas e a usar a pontuação adequada.

Por outro lado, a matemática era o meu pior pesadelo (sim, eu somava o zero!) e passava dias a imaginar como seria ter só português. De segunda a sexta. Que lindo!

Depois uma pessoa chega ao secundário e deixa de achar piada a esta disciplina, deixa de ser criativa para ter que obedecer totalmente ao programa. Depois vem a gramática. Mas já sabemos como é — o bichinho ficou sempre lá.

Escrever é o meu remédio, é o vosso futebol, o vosso cigarro. Esse “bichinho” andou adormecido pelos deveres que o secundário me incutia — estuda, olha a média. Queres ir pra jornalismo? Estuda. Decora as datas. Decora a história. Decora. Nem te atrevas a achar que isto não tem qualquer interesse. E porra, nunca duvidei. Até que.

No momento em que abri o tão desejo e-mail com as colocações para a faculdade dei por mim a pensar que eu não queria ler aquele e-mail desde o dia em que me inscrevi, mas sim desde uma aula qualquer da primária em que o sol despertou o meu lado mais irracional e um desejo incontrolável de escrever numa sebenta cinzenta.

Tudo porque um dia apareceu uma professora que não se preocupava apenas com a correção dos erros gramaticais e a ver se a estrutura está certa, mas a também dar valor ao conteúdo e a manter a miúda pequenina para conseguir inventar mundos com um lápis e uma folha de papel.

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