Há certas coisas que me arrepiam de medo.
Entre elas, o descolar do avião num dia de inverno e um casal com cara de rotina a tomar o pequeno-almoço no café. Todos os fins-de-semana o mesmo: café com leite e uma torrada. No início ainda dividiam, apesar de ele ficar sempre com fome. Agora não. No fim, pedem quatro pães para terem lanche. Tudo menos correrem o risco de não haver lanche.
A partir do momento que fazem o pedido, ela entra num monólogo; ele ouve as notícias e tenta captar o fim das frases dela, um truque que lhe tem safado ao longo dos três anos de relação. Ela queixa-se da nova colega de trabalho (as novas colegas de trabalho são sempre cabras, não são?) e ele dá a primeira trinca na torrada enquanto limpa os lábios cobertos de manteiga e acena com a cabeça numa de “sim mor, tens razão mor”. Agora é a vez dele falar de algo desinteressante e chato: a conta da luz. Foi estupidamente alta mas ela comenta que devem ser “os acertos”. Ele concorda e o rosto muda de expressão quando dá conta que chegou a vez de comer a torrada do meio. O ponto alto do dia. Ela decide pedir um bolo de arroz, um ato de loucura justificado de imediato para a consciência e as coxas não se queixarem muito: “Vá, tu mereces. Tiveste uma semana de loucos.”
Tenho medo de cair nisto. Tenho medo de não dividir mais a torrada e de só saber falar de situações que repugno mas que insisto em lembrar e, claro, adicionar mais adjetivos cada vez que as refiro. Por isso é que quero torradas com estranhos depois de uma saída. Quero ver os outros a comer torradas enquanto o vómito dá um olá tímido na minha garganta e recordo a quantidade de shots que bebi.
Quero torradas “com doce, por favor” ou cancelar o pedido só porque sim. Quero estar sozinha e não pedir uma torrada.
Sem necessidade de companhia. Sem razões óbvias para o estar a fazer e muito menos por ser domingo.
É que hoje apetece-me um bolo de arroz.