Sempre fui a miúda calada. A mais tímida. O escape sempre foi a escrita. Entretanto, cresci. Sou a miúda engraçada, aquela que seguramente vos fará rir. Mas contínuo a ter o outro lado, quase oposto, da miúda fechada que quer muito continuar a escrever.
Acontece que este ano fartei-me da prosa. Da minha, vá. Deixei de escrever. Até que um dia tentei fazer poemas. Apaixonei-me pelo ritmo. Pelas pausas. Pela procura de uma rima. A partir daí, surgiu a ideia do rap. Só uma ideia. Continuo a pensar nela com carinho apesar da dificuldade que tenho de marcar os tempos. De respirar. De entender mil e uma dinâmicas que são desconhecidas. Um dia chego lá. Na quinta-feira à noite não conseguia dormir. Estava farta de ver os meus poemas parados. Queria dar-lhes outra vida.
Lembrei-me de Poetry Slam. Coincidência: No sábado ia haver um concurso. O medo ria-se da possível participação. Arrastava-me pra cama. Mas desta vez não ganhou a ansiedade.
Fui. E à medida que me ia preparando, cada vez mais encarava aquela decisão como tudo menos um acaso. Preparei cinco poemas. Contei a poucas pessoas. À chegada do espaço, um gato preto recebe-nos. Devo mesmo ser artista pra ver simbolismos em tudo, queres ver? Oito participantes. A sétima da lista. Até na ordem de participação, feita aleatoriamente, tinha de ser a sétima a subir a palco. Raios parta este número. Acredito que me persiga. Um a um, subiam ao palco e contavam histórias. Davam entoações. Olhavam nos olhos. Pro chão. Riam. Sorriam. Viravam costas. Eram uma personagem e, ao mesmo tempo, eram eles próprios. Despidos de adereços. Passei para a segunda ronda. Daí passei para a última. E estava na final. Li o meu terceiro e último poema sem perceber muito bem se aquela noite estava mesmo a acontecer ou se era fruto de algum alucinogénio.
Ganhei. Sou a representante do Porto no concurso nacional de Poetry Slam. No final do mês vou a Lisboa para participar na final.
A ideia de sair da zona de conforto é dolorosa. Mas façam-no, sempre. É a única forma de fugir ao enfadonho. À baunilha. Ao neutro. E acreditem sempre que é possível. Calem as vossas outras vozes. A partir dai, que limite existirá?
Vá, depois disto imaginar-me a fazer stand up comedy nem parece um ato de masoquismo assim tão grande.