Hoje acordei a meio do mergulho na rotina. Tínhamos acabado de chegar a Rio Tinto. Guardei o livro que nunca consigo ler nestes ambientes e decidi ouvir música. O costume mas com uma diferença que me faz estar deitada na mesma praia onde todos os dias ia ao mar e quase me afogava.
Partilhei, com orgulho, a minha playlist. Estou habituada a esconder o bichinho das pessoas. Escondo-o sempre que acho que estou a ouvir uma música que me envergonho. E são mais do que as mães e bem mais do que as ditas aceitáveis. É na pasta “álbum desconhecido” que me aventuro – sinto que estou a correr num prado onde são moram velhinhos que me colhem flores e não conhecem um caralho de kizombada e hip-hop foleiro.
É lá que sofro de amores que nunca vivi, ando de leggins e cueca da avó com camisola curta e piercings no umbigo com pelo q.b.
O prado onde corro começa a acabar. A corrida dá lugar a um passo desacelerado. Vejo mar lá ao fundo. Cheguei a São Bento. Volto a olhar para o telemóvel, está a dar Capicua. Posso respirar de alívio.
Não vou a julgamento tão cedo.