É um desejo por cada mês, certo? Será que são realistas? Do género, consertar aquela parede lá de casa? Ou será que dão mais trabalho, como fugir durante dois meses sem dizer nada a ninguém? Mudar de carreira?
Só pedi uma coisa. Depois de muitos anos a traçar planos mentais, percebi que decido sempre quais são os planos que realmente desejo. São esses que se tornam reais. Os outros? Ficaram por trás por minha causa — não se chama falta de tempo, foi apenas uma vontade maior de fazer outras coisas. E estar em paz com isto é o mais complicado. Mas é possível. Vamos sempre querer muito com a certeza que, no final, a sensação será de felicidade.
Porém, não existe nenhuma correlação entre as duas coisas. Por isso, entre outras coisas abstratas, pedi paz interior suficiente pra entender que não preciso de querer fazer tudo. Que há tempo. E que há coisas que só aprendo com a evolução dele.
Mas vamos ver uma coisa — eu não pedi para os astros se alinharem e me fazerem feliz. Eu pedi a força que tantas vezes não está presente para perceber que sou feliz. Que estou feliz. Que posso não estar hoje feliz mas amanhã é um novo dia. Repito, que sou feliz por muito que não esteja; aquela diferença entre o ser/estar que muda tudo. Que somos pequeninos e tão frágeis que é um luxo ter muitos dias tristes.
Eu quero ser feliz e não sei em que circunstância: pode ser aqui, em minha casa, num domingo que é sistematicamente igual a todos os outros. Pode ser a descobrir um país novo. Pode ser a trabalhar noutro continente. Nada disto é um sinónimo de felicidade mas, se assim eu decidir, até se pode tornar. É este o segredo, não?
Mas agora, como é que nos tornamos seres felizes ao invés de estarmos esporadicamente felizes? Acredito que é uma decisão. Nunca percebi muito bem isso de não deixar a felicidade nas mãos, braços e pernas dos outros. Como não? Dependemos tanto do exterior. Como é que pode estar o mundo na minha mão?
Depois percebi: pode acontecer-me tudo. Tudo. Mas quem é que decide como lidar com essas adversidades e coisas maravilhosas? Eu. Posso ver o preto na situação mais amarela. E olha só, posso ver tantas cores numa situação tão cinzenta. Posso escolher. Um livre arbítrio moderado mas libertador o suficiente para não me sentir assim tão enclausurada.
Gosto muito da palavra «depende». O que é para mim não é para ti. O que é azul para ele pode muito bem ser roxo para ela. E podem dizer que sou tão novinha para tudo isto. Que ainda «vou ver». Pois vou. E vou ver num espirito tão preto, às vezes. Só espero ter alguém que me diga que eu posso escolher como enfrentar seja o que for. Que não entre na lamúria comigo.
É que eu juro que já vi um céu azul, um sol tão quente, um mar tão convidativo. Já vi tantos sorrisos genuínos e vezes sem conta desprevenidos, animais que amam ser pedir e tantas vezes sem que mereçamos.
Já vi gestos de amizade que nunca pensei serem possíveis; e são tão pequeninos, será que os outros derem conta que aquilo era mesmo amor? Um amor totalmente desmedido e livre de narcisismo? Já o vi, juro.
No início do dia 1 de janeiro, olhei pro céu. Depois, olhei em volta — só sorrisos. Podem estar mascarados pela euforia da data mas, nem que seja por um segundo, era tudo genuíno. Pelo menos, acredito nisso. E por isso, é real.