Não sei fingir dor

Talvez fosse sensato dizerem-nos, mal nascemos, que o fim está perto dado que acabamos de fazer parte de uma realidade que será curta.

Lamentavelmente, só levamos o murro da morte quando a doença se prolonga, quando é radical na sua manifestação ou quando algum acidente ocorre. Seja qual for o motivo, o choque é a primeira emoção:

-Era tão novo.

-Foi tão rápido.

-Talvez tivesse na hora dele.

-Que joia de pessoa, como é que isto foi acontecer?

Todas estas frases servem de gavetas na nossa atividade mental — pode ser que assim percebamos melhor os mecanismos da morte dado que é o assunto que respira controvérsia, talvez há demasiado tempo.

Está na hora de a normalizarmos. Inquieta-me saber que ainda vou lidar com o bicho papão inúmeras vezes com extrema dificuldade de aceitação. Não quero que os meus pais morram. Tenho pesadelos com isso. Ainda acho que um amigo meu vai ter um acidente horrível e que vou acordar com um telefonema inesperado.

Sofro por antecipação — mesmo sem motivos, imagino a perda e deixo que doa. Talvez por fazer o luto de alguém que ainda está presente seja capaz de apreciar essas pessoas de uma forma praticamente completa; essa coisa dificílima de viver no presente.

Por outro lado, não me obriguem a fingir compaixão com mortos que nada me foram enquanto vivos. Mais, não se obriguem a criar dores de solidariedade. Ninguém transforma o seu caráter de merda num angelical devido ao fim do bater do coração. Ninguém merece mais perdão porque os seus órgãos entraram em falência. Ninguém tem de beijar um corpo frio para demonstrar apreço.

Há inúmeras formas de fazer o luto, talvez mais ainda para justificar o porquê de não ter de o fazer : a morte não pode ser a desculpa para uma maior interação.

No fim dos funerais, a conversa é invariavelmente a mesma:

-Temos de nos ver mais vezes.

-Quando é que combinamos um café?

-Só nos vemos aqui e em casamentos, já reparaste?

E nada mudará. Porquê? Há tempo para vivermos o suficiente para não termos medo do mistério da morte. Há tempo para rir tudo durante os diferentes estágios do nosso percurso para que esses créditos acumulados sejam gastos na solidão que acompanha a velhice. Há formas de criar memórias que ultrapassam o poder do fim que dita a morte; na verdade, ela nada dita.

O poder é nosso. No dia em que a olharmos de forma doce e com o peito feito de quem nada teme, não será ela tão pequenina que nem valor terá?

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