Nascer para cuidar

Nascer, crescer, procriar, morrer.  No meio, mas só se fizeres uma valente ginástica, tenta divertir-te.

Recuso-me.

Ao escolher fazer parte do esquema ‘nascer, crescer, viver e morrer’, não me torno refém de um fado que nos é imposto desde cedo.

No entanto, é comum ouvir que uma das minhas tarefas deste ciclo será “cuidar da tua mãe” como se tivesse assinado um acordo que me impossibilita de ser livre a partir do momento que a doença chega e a autonomia enfraquece.

Poderia argumentar que não pedi para nascer mas até lhe agradeço esse feito, de outra forma não poderia estar aqui a explicar-lhe que o nosso vínculo nunca será sinónimo de dependência.

Não vou carregar o fardo da ansiedade de saber que um dia poderá precisar de mim para comer, sentar; ser. Vou ser egoísta ao ponto de a relembrar que não deseja isso para mim ou para ela. Que sempre me relembrou da minha felicidade como o seu maior objetivo.

Quero que as minhas últimas lembranças dela sejam associadas a noites de riso infindáveis, não choros compulsivos por já não saberes quem é.

Aceito acompanha-la nessa jornada com apoio emocional, mas não pode contar comigo para depósito de frustrações. Prometo ser duas quando não souber o caminho, e vão ser tantas as vezes que vou mostrar que a velhice tem piada por todas as regalias que a acompanham.

Não nasci com funções — nasci apenas com o propósito que é comum a todos.

Chamem-lhe egoísmo, mas já vi o suficiente para repudiar qualquer obrigatoriedade imposta pela familiaridade.

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