Sorrir sem motivo

Quando nascemos, tudo é novo. Qualquer experiência carrega o potencial de nos fazer sentir incrédulos. À medida que crescemos, a lista de novos eventos diminui o que nos dá a falsa ideia que já sentimos tudo.

Independentemente do número de ocorrências, a sensação de inquietude pode ser ativada por nós — sim, acredito que podemos ter a nossa primeira vez, várias vezes. Basta percecionar-nos o mundo à nossa volta como se fossemos indivíduos que acabaram de aterrar neste planeta sem razão aparente.

Sei que este exercício é complicado pois a rotina mascara qualquer tipo de beleza — onde está a piada em comprar pão? Como é que é suposto sentir-me feliz enquanto sou esmagado num autocarro cheio?

Experimenta olhar para a janela e imaginar os diálogos daqueles que vês lá fora ou imagina a liberdade de comprares maças e sorrires para elas, como se tivesses a admirar o seu sabor?

Numa sociedade que nos seduz a sentir tudo de forma rápida, pode ser desafiante parar um bocadinho para nos relembrarmos que caímos no buraco da habituação de tudo o que nos rodeia: Podes olhar para o mar, como se nunca o tivesses visto? Ou sentir o sol quente na tua cara, sem o telemóvel na mão? És capaz de contemplar o teu cão enquanto ele dorme?

Muitas vezes, a iminência da perda serve como desculpa para sentirmos tudo de forma muito profunda o que é um método baseado numa noção de limitação temporal. A mesma coisa acontece quando as pessoas acreditam que a inquietação apenas acontece na infância. Como resultado, nunca seremos capazes de reparar no quadro mágico de um pôr-do-sol pois para eles é apenas a transição do dia para a noite.

Parar a dormência e exigir a nossa presença total no presente, de forma a desafiar-nos a luta de pensamentos que acontece no nosso cérebro, é um trabalho que nunca acaba. É uma luta que consiste na aprendizagem de resistirmos à facilidade de sermos apáticos num mundo que já nos deu tanto para sentir e explorar.

 

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