Quando somos crianças, vivemos sem medos. Ainda não sabemos ao certo como é que os grandes vivem e o que isso significa. Felizmente, nem nos apercebemos da selva em que habitam. As nossas preocupações são mínimas e as necessidades básicas estão asseguradas.
Mas começam a falar-te do bicho que aparecerá se não comeres a fruta ou dos demónios que irão surgir debaixo da tua cama se não fizeres os trabalhos de casa. Começamos a ser reféns de um medo irracional que estará constantemente presente no nosso subconsciente.
De pequenino se alimenta o medo.
À medida que as dúvidas se instalam na tua cabeça também o medo aumenta pois a falta de confiança é a sombra que te acompanha em todas as tomadas de decisão. Talvez por falta de experiência e uma dose desmedida de sonhos dás por ti na margem do que desejas com receio desse salto que te levará para terras desconhecidas.
Lembro-me das primeiras vezes em que tentei mergulhar. Ensinaram-me que nada de mau iria acontecer e o quão simples seria suster a respiração dentro de água. Mas quando nos aventuramos em algo novo, independentemente da dimensão da situação, inventamos cenários na nossa cabeça fruto do medo. Sempre o medo. Interfere em todas as novas situações e corremos o risco de deixar de viver o que é novidade. Quanto mais vezes adiava as minhas vontades por pensar demasiado, mais o medo ganhava controlo. Quando finalmente mergulhei apercebi-me do tempo que demorei para o fazer e fiquei revoltada por deixar que algo que nem é palpável ganhasse.
O que teria mudado.
Talvez fosse necessária uma mão cheia de desespero para que aquele mergulho fosse feito sem tantas idas à piscina. Afinal, o que teria a perder? Se o conseguisse fazer à primeira nem dava tempo ao medo de gritar nos meus ouvidos, reforçando o quão incapaz sou. A verdade é que quanto mais ficamos presos num ciclo destes mais improvável será o sucesso desse mesmo salto. Ou seja, é uma decisão que tem de demorar segundos para ser tomada de forma a que até o nosso irracional se esqueça da loucura que vamos fazer.
Eu mereço. Repete: Eu mereço, porra!
Quanto mais adultos somos, mais racionalizamos os nossos medos pois achamos que o acumular de anos de existência nos fizeram experimentar o suficiente para saber como agir e, principalmente, como nos defendermos de alguma ameaça externa. Daí que ache que para derrubar esse muro do “Mas e se corre mal?” é necessário um balde gigante de amor próprio pois só quem se abraça com vontade sabe a importância de lutar pelo que mais quer pois aí reside a chave da felicidade.
Hoje digo Olá ao medo.
A partir do momento que sabemos qual é o sabor de ultrapassar uma barreira que parecia construída com materiais que as nossas vontades jamais seriam capazes de derrubar há uma nova força e orgulho que explodem com mais força. Passamos a questionar como é que alguma vez nos atrevemos a fraquejar quando este novo mundo é tão mais agradável. Nosso. Tudo se normaliza e esqueces o medo como se fosse um colega que não fazes questão de manter contacto. Mas surge sempre o dia em que aparece de novo, devagarinho, e tu lá lhe dás as mãos e explicas que a vossa relação não pode continuar mas que é sempre bem-vindo como lembrete associado à excitação de todas as coisas que são novas.
Da arrumação dos sonhos até ao ar puro dessa gaveta.
Hoje vivo para o medo. Vivo para aquele sensação de nervosinho. Respiro ansiedade na medida certa, na maioria das vezes. Anseio os “nem pensar” e sou refém de desafios impensáveis. A certeza da minha finitude empurra-me para desafios maiores pois é um luxo poder ter a oportunidade de, sequer, sonhar. E mãos para pôr as minhas vontades em curso. E um cérebro para as idealizar. Até que as vês, reais. E és, de novo, uma criança sem medos.
A minha história.
Sempre fui a mais tímida, a que nunca se atrevia a participar nas aulas por muito que soubesse a resposta. Por dentro eu representava todas as cores, por fora passava despercebida. Viver entre duas personagens por escolha própria tinha-se tornado rotina pelo que já dominava o que dizer e como estar em todas as situações. Quando finalmente me apercebi do meu potencial e do que andava a perder por não me abrir ao mundo, era uma questão de tempo e paciência até desabrochar por completo. Ainda hoje convivo com amigos que me relembram da pessoa totalmente diferente que já fui e a verdade é que não sinto saudades dela. Se ainda fosse assim hoje seria miserável. Claro que ainda me custa abordar desconhecidos, manter conversas de café e ainda faço questão de pensar e estruturar tópicos de conversa em jantares de família com antecedência mas é um caminho sem destino que já me deu um gozo gigante percorrer.
Eu era um lugar-comum. A miúda tímida que gosta de escrever e que jamais seria capaz de mostrar o que escreve. Percebi que tinha uma visão do mundo que merecia ser partilhada cedo, na primária. A minha professora gostava tanto das minhas composições que as lia em voz alta e mostrava a outros professores:
– Esta menina vai seguir letras. Tem de seguir letras!
Segui de mão dada até aos dias de hoje e já me perdi em contos, poesia, crónicas e outras tantas variações da mesma paixão: escrever. Na escola participava em concursos literários e passava horas a ler.
Se hoje em dia leio muito menos, por outro lado imagino ainda mais. Há um ano descobri que gostava de poesia, de brincar com o ritmo das palavras e de aliterações. Escrevi cinco poemas em pouco tempo e olhei-os nos olhos como se fossem os meus bebés. E olhem que nunca imaginaria uma gestação tão espontaneamente desejada.
Longe de acreditar em coincidências, a verdade é que descobri um concurso de poesia que seria no dia seguinte e resolvi fazer uso do conselho que aqui deixei: Não pensar. Ir. Tentar. Enchi o peito, decorei os meus versos, acalmei os nervos. Atuei para uma sala cheia de gente. Era só eu. Vulnerável. Todos eles me viram nua. Com palavras que contam quem sou. Foi terapêutico. Tanta gente a ler-me num período tão curto de tempo, algo que só manifestações de arte permitem. Acabei por ganhar o que foi uma alegria difícil de explicar pois por muito que não possamos depender da validação dos outros foi um abraço apertado saber que aquele momento de partilha tinha feito a audiência sentir; seja lá o que for.
Depois veio o salto que mais me custou. O de fazer stand-up comedy. Sabem aqueles desejos que todos temos mas que calamos, com medo? Este talvez fosse aquele que mais guardava no fundo da caixa. Mas há dias em que para podermos evoluir há a necessidade de limpar. Com um convite para atuar uns minutos surgiu uma vontade inexplicável de me tornar amiga de um microfone com o objetivo ridículo de entreter desconhecidos a troco da minha liberdade. O nervosismo venceu, nessa noite. Ainda vence, em tantas outras.
Mas as pessoas com que me cruzo, as atuações incrivelmente livres que vejo e o respeito que tenho pela arte de fazer rir é tão gigante que me apercebi que quero fazê-lo para a vida toda. Há o risco de nos tornarmos reféns de uma validação que surge pelo riso, da mesma forma que vencer um concurso de poesia me fez conhecer essa hipótese. Pois então, não vou permitir que a falta de risos me faça sentir diminuída e aí reside o maior desafio: ser imune à queda e à subida pois o meu valor nunca será medido. Nunca será contextual.
Shiu, é segredo!
Não te contam que um dia vais sentar o teu corpo cansado numa cadeira que já se molda a ti pela quantidade de vezes que és a companhia dela e que te matará aos poucos ouvir as tuas amigas, já debilitadas, a falar da sua jornada com frases que começam por “Se eu soubesse o que sei hoje” mas pelo menos verás a luz nos seus olhos ao viveram as tuas histórias através dos detalhes que partilhas. Ainda que seja doce, não queiras só imaginar. Saberá tão melhor seres tu a comandar esses ideais. Entristece-me ouvir desabafos de pessoas que fariam tudo para voltarem a ter a minha idade de forma a viverem de forma diferente. Aflige-me ouvir sonhos que são conjugados no passado.
Adoro histórias de vida que são marcadas por pontos tão baixos que nos custa perceber como recomeçaram mas só assim conseguiram desfrutar de uma subida. Não necessito desses picos de experiências e sou muito feliz em linhas retas mas viver anos dessa forma não me mataria a sede. Quero todas essas linhas tortas que se assemelham a montanhas e momentos sem lombas em que a previsibilidade do futuro é certa pois o meu propósito nunca dependerá do estado de espírito que sinto nesses momentos mas sim, e primeiramente, do meu amor próprio.
Nunca serei menos no preto. Nunca serei mais no alto. O derradeiro desafio será ser capaz de jamais refutar a ideia de que valho por mim mesma. Seja em que cenário for. Em picos da montanha ou aninhada no chão. Pois aí, tudo se inverte — é o medo que se esconde de ti.