Poderia repetir o mesmo trajeto todos os dias pois a sensação de inquietude será sempre a mesma. Independentemente da chuva, do céu cinzento ou do sol que me encolhe os olhos perante o quadro mais bonito que existe.
Durante três anos tive o privilégio de o ver, todos os dias, através do percurso de comboio até Porto São Bento. Procurava sempre o lugar à janela do lado esquerdo para poder namorar o rio Douro enquanto o comboio era testemunha do meu cortejo. À minha volta poucos te admiravam com o mesmo brilho nos olhos o que me levava a questionar em que altura tinham deixado de reparar na tua dança, como é que se atreviam a desviar o olhar do teu rumo ou a achar que o teu azul se assemelhava a outros.
Por outro lado, são cada vez mais as vozes estrangeiras que te fazem juras de amor enquanto eternizam o momento em que te vêm pela primeira vez. Não fico com ciúmes pois se para elas és uma paixão fugaz, para mim és o lar, o conforto da previsibilidade, o amor que não tem pressa de chegar a lugar nenhum pois já se encontrou. A novidade é que nos faz brilhar, sabe a paixão. O amor, esse, constrói-se: e é isso que sinto pela cidade. Já conheço cada recanto, aceito cada defeito. Viu-me miúda, caminha ao meu lado enquanto mulher e quero que me receba da mesma forma quando as minhas pernas não permitirem a subida até à rua dos Clérigos.
Mais uma vez, enquanto estava no comboio, observei os viajantes com mais atenção. Pelo olhar, percebi que era a primeira vez. Enquanto preparavam a fotografia, o comboio continuou, entrou no túnel e tudo ficou preto. Um casal conservou a memória sem auxílio de telemóveis ou máquinas fotográficas. Foi paixão à primeira vista. Imaginei a felicidade deles ao saírem do comboio e ao caminharem até ti para te verem mais perto. Por muito que não possa voltar a ter essa experiência, vê-los basta-me: é como ler uma história que desperta uma área outrora adormecida.
Graças a eles, consegui sentir o Porto com os olhos de menina curiosa que é levada pela mão da mãe à cidade pela primeira vez. Torço para que conheçam os mistérios que ainda escondes e que observem a água que te banha. Quero que se beijem nos esconderijos que desaguam num qualquer café com cheiro a norte e que se percam para encontrarem a simpatia de quem casou com a cidade.
Acredito que o amor é livre pelo que o Porto nunca me pertencerá. É de quem o espreita pela janela. De quem o troca para um dia poder voltar com segurança. De quem o pisa e jura não querer mais sentir outro chão. É de quem grita que encontrou o lar. É dos nómadas que têm um caso breve, mas intenso. É dos que sentem a urgência de um novo código-postal. É dos que deram o primeiro choro num qualquer hospital das redondezas, mas também dos que tentam perceber o sotaque. É dos que acompanham a sua jornada e aceitam a mudança pois sabem que nada lhe mudará o caráter. É dos que mantêm o olhar atento e a boca sedenta de novos ensinamentos.
É meu e é teu.