Lembro-me claramente de me dizerem para estudar muito. Só assim seria “alguém”.
Eu ouvi isto de família, colegas e até pessoas que não me conheciam. Os seus olhos enchiam-se de nada à medida que a conversa continuava, como se fosse claro o arrependimento de não prosseguirem os estudos.
Com o passar dos anos, acostumei-me a acreditar que a faculdade teria a chave da minha felicidade, como se esse sentimento tivesse que ficar trancado até os 18 anos.
Enquanto esperava, concentrei-me em estudar tanto que até um pequeno fracasso me fazia sentir horrível. Sempre que minhas notas não eram altas o suficiente, eu pensava que a minha hipótese de me me tornar alguém estava a diminuir. Esse ciclo de me punir ou de me recompensar com base na percentagem que recebia nos exames estava a ter consequências: ansiedade, medo, vazio.
Quando soube que fui aceite na faculdade, fiquei aliviada. Pelo que me disseram, a felicidade estava agora ainda mais próxima.
Mas algo havia mudado. Fui colocada num ambiente social que se importava mais com as minhas experiências fora da sala de aula. Eu estava a conhecer pessoas que tinham sonhos que nunca tinha ouvido falar. Fui exposta a situações que lentamente me mostraram que as notas nunca poderiam definir o meu potencial.
Quando finalmente entendi que poderia aprender muito mais com as pessoas que não testavam o meu conhecimento através de um pedaço de papel, havia uma sensação de liberdade: a verdade é que eu estava a estudar muito menos e a aprender muito mais.
De certa forma, todas as pessoas que me deram aquele conselho quando eu era criança estavam certas. Eu tive que estudar para aprender, entre outras coisas, que sempre fui uma pessoa. E que sempre o serei. Uma pessoa que desde o início tinha as ferramentas para ser o que ela quiser.
Todos os dias estudo o que me rodeia, todos os dias aprendo. Sei que as pessoas ao nosso redor não querem nada além do melhor para o nosso futuro, mas as nossas escolhas não são feitas pelo mesmo caminho e nem levam necessariamente ao mesmo destino.
É libertador não sentir a necessidade de verificar todos os itens da lista social que recebemos à nascença, para que a nossa existência possa ser validada.
Afinal, eu escolhi estudar, exatamente como tinha sido aconselhada. Só se esqueceram de me avisar que poderia encontrar a felicidade e um propósito ao longo do caminho.