A minha identidade

Quando somos jovens, conselhos nada mais são do que palavras reunidas numa frase. Não prestamos atenção a essas palavras porque parecem incapazes de ter qualquer tipo de conexão com o nosso caminho.

Mas, se tivermos sorte, a nossa memória, mais tarde, transformará essa informação (aparentemente) sem sentido em algo digno de nossa atenção. Caso contrário, a frase “Eu avisei-te” será, sem dúvida, ouvida.

Felizmente, fui a tempo de perceber um dos maiores clichês do mundo — tenho de ser eu mesma.

Mas o que é que isso significa? Qual eu? Eu consigo ser três eus? Será que sou falsa por não me sentir como o meu eu de ontem?

Ouvi muitas vezes que deveria falar mais. Ser mais aberta. Sorrir mais. Na verdade eu queria interação, mas não dentro dos moldes que me vendiam. Então só fazia piadas em casa e só escrevia no caderno que mantive escondido no meu quarto.

Quando saia da minha zona de conforto, estava lá sem nunca estar presente — quanto menos vibrante eu fosse, maior seria a probabilidade de ser aceite. Por exemplo, sempre que eu estava com os meus amigos, eu observava o que os fazia rir como se eu estivesse a preparar a minha revelação. Sempre que ia ao cinema, pedia aos meus amigos para comprarem o meu bilhete porque tinha vergonha. Por causa disso, o meu nome começou a ser constantemente associado à calma. Ou, até, a um caso extremo de falta de personalidade.

Pelo contrário, em casa eu era essa jovem que se acostumou a gozar, a ter um sentido de humor muito particular e a criar paródias com tudo. Eu costumava inventar personagens ou imitar pessoas que meus pais conheciam para que eu pudesse entreter a minha família. Eles riam-se tanto que rapidamente fiquei viciada nessa sensação.

Ser criada com tanta liberdade fez-me perceber que eu poderia assumir qualquer personagem com a qual eu me sentisse mais confortável: se eu quisesse ser arqueóloga, tudo bem, e se por um acaso eu fosse feliz como pintora, os meus pais só me relembravam da importância de nunca parar de perseguir esse sonho.

Ao contrário de muitos casos, eu era genuína com os meus pais e completamente desonesta em torno de meus amigos. À medida que ia evoluindo com estas duas identidades, o desejo de gostar de mim fez-me seguir aquele conselho: ser eu. Sem morada, sem pertença.

O processo de abraçar essa metamorfose fez-me perceber o quanto ser amada pela família que eu não escolhi me mudaria. De uma completa falta de autoestima à consciência que poderia ter a liberdade de ser eu mesma rápida houve um processo longo.

Mas tornei-me quem sempre quis.

Já não era uma escolha, mas sim uma necessidade. Lentamente, explodi — barulhenta no riso, engraçada em contextos completamente errados e quase sempre louca. Às vezes, calma. Às vezes, calma durante semanas. Mas agora é uma escolha, e não uma prisão.

Ao encontrar a minha verdade, parei de ter medo de não ser convencional. Deixei cair a projeção do que deveria ser, e ao invés disso, apaixonei-me pela pessoa que tinha conhecido há muito tempo.

Hoje sou apaixonada por ela.

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