O café curto pedido com carinho foi substituído pelo copo descartável que tem o nosso nome. Não se deixem enganar, é um gesto mecanizado. Não o quisemos, mas estudos mostram que sempre o desejamos.
Ouçam-nos. Sei que é complicado – o Porto agora tem mais barulho, com tantas vozes a reclamar o lugar central.
Vejam-nos. Sei que é difícil — há uma multidão disforme que se atropela na fila para ver as livrarias e os cafés que são paragem obrigatória antes da viagem de retorno. É uma nuvem de rostos que não se conhece e que traz uma máquina fotográfica no pescoço.
Respeitem-nos. Não somos nós antes deles. Não pedimos assim tanto: o velho tem encanto mas cai. É bonito mas precisa de obras. Não precisa de ser sempre reerguido com outra personalidade com a desculpa da procura.
Falam de investimento privado. Falam de obras. Do crescimento. Da cidade mais bonita da Europa, quiçá do Mundo. Mas falem com quem cá passou. Vão contar-vos tudo sobre as ruas que desaguam num novo segredo que é explorado entre copos de vinho. Vão contar-vos sobre os mergulhos confiantes dos miúdos que se atiram sem medo para o Rio Douro. Com sorte ainda ouvem as histórias de quem tem as letras da cidade cravadas no peito.
Eles, os de lá, nunca serão o inimigo. Nós somos todos de cá e de lá. Procuramos todos o mesmo. Queremos todos o mesmo — ir. Ir para descobrir sempre mais um bocadinho sobre nós, eles e o mundo. Conhecemo-nos com cada bilhete de avião, no meio de tropeços na língua materna do país que nos recebe e nos gestos que fazemos até sermos compreendidos.
Ainda assim, e mais do que nunca, pertencemos ao mundo que se uniformiza. Às cidades com crises existenciais. Às praças descaracterizadas.
Mas os recantos não se compram e não sabem dar troco. O sol quente que nos recebe à porta de São Bento ainda não tem preço. A noite do Porto ainda percorre um trajeto especial; de olhos cerrados, sabe receber e criar histórias com uma bagagem cravada na abertura das vogais.
Absorve bem esta fonética e regressa quando o sentimento que associas à ausência dessa música só se traduzir em saudade.