O encontro com a quietude

– E voltas quando?

Seguiu caminho. A partir daí, o sol tornou-se num despertador incómodo e o sabor do café era uma oportunidade rara de relembrar o que outrora foi conforto. A chuva transformou-se num obstáculo e a paisagem mais recorrente era feita de sapatos apressados num ritmo monocórdico.


Durante os primeiros meses olhava fixamente para as pessoas que passavam pelo canto que denominou de seu: dava-lhes nomes, profissões e histórias de vida complexas. Preferia perder-se em contos quando vinham acompanhadas, talvez para se relembrar que a solidão não é uma condição do mundo. Talvez seja só sua, até. Os dias eram mais compridos quando a rua estava vazia e a noite era, invariavelmente, longa. Forçava-se a adormecer cedo, na esperança que o negrume acelerasse enquanto os seus olhos estavam fechados. Sonhava pouco e nunca se recordava do que tinha vivido nesse outro mundo. Ainda assim, preferia ter essa anestesia de irrealidade para conseguir suportar mais um dia que se parecerá demasiado ao de ontem, tal como o de amanhã.

Acorda. Era um novo dia, mas igual aos outros. Escreveu, mais uma vez, a sua mensagem de desespero no seu velho cartão, talvez com uma ligeira mudança de palavras alguém parasse, na esperança que a correria do dia-a-dia se transformasse num lento passo. A maior ginástica mental concentrava-se neste momento – enquanto decidia que palavras usar, era feliz. O livre-arbítrio habitava naqueles segundos onde era apenas ele, a caneta e o cartão. Nos dias mais generosos, tentava memorizar as palavras que pareciam ter resultado apesar de saber que existiam mais fatores que contribuíam para uma quantia mais elevada de dinheiro.

Todavia, era uma boa ilusão: nesses dias, conseguia comprar comida suficiente para se esquecer que tinha vontade de comer. Às vezes pernoitava com fome, propositadamente, para ter algo com que se ocupar pois de outra forma só sobrava ele e a caneta.

A escrita salvava-o do buraco depressivo onde tantas outras vezes caia. Por variadas ocasiões lembrava-se do passado como se fosse uma realidade paralela onde não havia frio. Na sua perceção longínqua de felicidade, ainda não tinha caído num percurso sem retorno que culminou em duas mãos sujas viradas para o céu.

Todos os dias tentava relembrar quem era e fitava todos os homens que por ele passavam, quem sabe se por sorte se poderia reencontrar noutra figura. Até que, enquanto se estendia para a misericórdia cair nas suas mãos, reparou num homem que se preparava para se sentar ao seu lado:

– Sabes…? Vejo todos os dias pessoas a passar aqui, indiferentes, como se eu fosse mais uma pedra da calçada.

– Eu já te tinha visto aqui. Posso fazer-te companhia?

– Quase todas as pessoas sabem que está aqui alguém. Mas são poucas as que realmente me olham. Fica.

A conversa prolongou-se entre os dois e ninguém se importou. Aliás, tornou-se numa melodia inesperada mas, acima de tudo, confortável.

– Então, o que é que estás aqui a fazer? – Não sei. Pela primeira vez sinto-me livre. Pode parecer parvo… mas aqui sinto-me mais em casa do que em qualquer jantar de família. Acho que sofro de sonambulismo crónico sempre que um evento desses se cruza no meu dia. Ligo o botão e deixo que o meu algoritmo responda às questões redundantes. Explico as minhas vontades superficialmente e dou-lhes laivos de mentiras para um alívio que durará até ao próximo jantar. Perguntam tanta coisa mas não querem saber nada, percebes? Já imaginei o dia em que questionam se estou feliz. Temo que nesse dia o meu sistema entre em curto-circuito.

– Nesse dia sairás da tua carcaça de metal. Mostrarás os teus sonhos que ainda não foram lavados com o sabonete do imposto. Olha, eu segui o meu. Imaginas o que é ter uma grande vontade de conquistar o mundo e, por momentos, acreditar que podes? Eu tinha um sonho. O sonho de escrever. Livremente, como um pássaro.

– E como é que veio aqui parar? – Em tempos fui poeta mas diziam-me que tinha jeito para jornalista. Não; não é para mim. Acredito que tudo é mais belo com adjetivos. Por exemplo, aquela árvore nunca poderá ser, apenas, uma árvore. É bela, entendes? Vês a forma como as folhas repousam na janela do prédio? Não vês aí poesia?

O rapaz acena. Além de ver a poesia, naquele momento tinha-se personificado nela.

Durante os próximos dias, o antigo escritor dispensava horas de sono de modo a ouvir as histórias do seu novo companheiro, Bernardo. Parecia que estava a escutar contos de um universo paralelo onde a compaixão era o fio condutor de todas as ações, mesmo as mais pequenas. Ficava impressionado com a capacidade do seu novo colega conseguir ver amor na rotina de quem por eles passava. Por exemplo, sabia que na lancheira do almoço da criança que atravessa a passadeira ao meio-dia e um quarto vinham sempre dois guardanapos pois ela suja sempre o primeiro antes da sobremesa. E a fruta era sempre lavada sob um olhar atento; mais do que zelar pela sua saúde, era um ato desmedidamente irrefletido de afeto pela parte da mãe.

Cada vez que as conversas giravam por tons mais luminosos, o velho sentia-se na obrigação de furar os balões que o elevavam a um céu rasgado de esperança.

– Acreditas na ironia? Não a dos livros mas sim aquela que nos bate na cara de vez em quando.
Bernardo não responde. Como sempre, mostra um sorriso aberto que demonstra a alineação que tem perante o discurso cru e negro do seu colega.

– Envolvi-me tanto num trabalho que acabei aqui. Tenho demasiadas pessoas para um só corpo, sabes? A família já não me reconhecia e nem eu encaixava no meio de tudo aquilo. Perdi-me nas minhas histórias e naufraguei nos meus medos. Tornei-me irreconhecível.

A partir daí, todos os desabafos se tornaram mais vagos. Os detalhes eram substituídos por palavras desocupadas de significado. Depois de um período de silêncio, Bernardo tenta recuperá-lo:

– Eu era contabilista, aqui na Baixa. Larguei a segurança pela incerteza. E olha, ainda não me arrependi. Conhecer-te não deve ser um acaso.

– Estás muito enganado. Sou um acidente de percurso numa história tão tua e longe de estar determinada, como a minha. Vá, prossegue a tua viagem.

Para Fernando tudo era familiar ao ponto de reconhecer cheiros de uma vida que sentia pertencer a ele próprio. Por isso, escolhia expressar precisamente o contrário da sua vontade pois o medo de criar dependência de Bernardo era maior. Tudo era demasiado perturbador e íntimo pelo que, nessa noite, tomou uma decisão.


Esperou pelo sono profundo de Bernardo e pelo autocarro noturno para concluir o seu escape. Interrogou-se várias vezes da certeza da sua saída, aparentemente, repentina, como se ele próprio quisesse deixar uma parte de si naquele território conhecido.

Mas Fernando já tinha tudo pensado. A decisão havia sido tomada depois de uma das muitas conversas que culminavam em memórias. Dores de cabeça. Cansaço.

Instalou-se numa zona desconhecida de Lisboa e permitiu-se começar do zero. Afinal, a sua zona de conforto era a antítese disso mesmo. Decidiu em que canto iria dormir durante noites consecutivas e convenceu-se que aquele seria o seu último destino, como se momentaneamente se tivesse esquecido que a única constante era a sua metamorfose.

Bernardo acordou revoltado com a partida do seu amigo. Tinha demasiadas questões, não só pela sua decisão mas também pelo afeto que o velho havia demonstrado na noite anterior. Abraçou-o diversas vezes, manifestando uma faceta emotiva desfasada da rotina que haviam construído: só reconhecia o rosto de Fernando, tudo o resto pareciam gestos de uma outra pessoa.

A rotina de Bernardo em nada se transformou ao ficar sozinho, apenas tinha mais tempo para repensar as possíveis razões que poderiam levar alguém que estava feliz a abandonar tudo aquilo que lhe era querido:

– Será que a solidão vicia? Poderá a minha presença lhe ter relembrado dos seus tempos de juventude? Terei sido eu, sem dar conta, a confrontá-lo com o fatalismo da nossa existência?

Bernardo deixava que cada pensamento intersectasse a sua mente ao ponto de criar uma teia infinita de possibilidades que raramente se cruzavam pois cada conceção que pudesse explicar a partida de Fernando era radicalmente diferente.

Contudo, conseguia conceber argumentos suficientes para validar cada uma dessas ideias. Vencido pelo cansaço, aconchegou-se com folhas de jornal a fazer a vez dos lençóis. Tinham sido trocados na noite anterior, depois da chuva. Iluminado pela lua, decidiu ler as notícias que datavam de anos passados. Rapidamente reparou que todas as páginas estavam escritas com a letra de Fernando:

Não sei se sei quem sou,
Mas contigo sei seguramente que fui.
Obrigaste-me a olhar-me e estou velho pra esse exercício
Agradeço-te a companhia, mas a solidão é a minha morada.

Bernardo percebeu que a mensagem era para si. Já Fernando continuava convencido que o isolamento era o trajeto certo para acelerar a chegada a um qualquer destino que o fizesse chegar mais perto do sossego. A sua solitária companhia fazia-o ter mais tempo para imaginar amigos que, à sua vez, emergiam para soltar a sua voz no papel:

Quero estar ocupado com que propósito? Não pensar ajuda-me a chegar à felicidade mais rapidamente?
Pior: é assim tão mau fazer-me companhia em torno do nada que a vontade de ocupar aquilo a que chamamos tempo se torna gritante?

Sou nada. Não. Sou um ego que grita nos ouvidos dos outros.
Mas não posso. Não sou mais urgente.

De que vale existir? Sou demais para mim; mas talvez haja dias em que mudar o mundo implica estar parado.
Talvez eu seja a premissa da mudança.
Talvez devesse ser como o Bernardo.
Ou ser o Bernardo.

Cansado da falta de controlo dos diferentes homens que comandam o seu pensamento, abandona os rabiscos e aventura-se no rio. Deixa-se mergulhar com o cérebro vazio e durante segundos não garante a si mesmo que seja capaz de emergir do estado submerso.

Imóvel, reclama o poder de si mesmo. Retira da sua mochila um pequeno espelho que Bernardo lhe tinha dado. Ultimamente usava-o com frequência para se ver, talvez na esperança de tentar descobrir a sua identidade através de um olhar prolongado para as suas feições. Nos dias em que a dor de ser indefinível era maior do que a vontade de dissertar sobre essa mesma condição, mirava os seus olhos à espera que se tornassem maiores ou que a sua boca se arredondasse mais.

Afinal, não concebia ser possível que as suas outras identidades pudessem ter a liberdade de encarnar na sua própria cara.
Repete o exercício que fez no rio: fecha os olhos. Sustém a respiração. Tapa os ouvidos. Sem sentidos, tenta pôr fim às sensações como se fosse mestre de si mesmo.
Desiste. O barulho dos seus pensamentos torna-se ensurdecedor. De novo, segura o condutor da sua sanidade e confessa-se:

Se só agora despertei e percebi quem era neste mundo
Não me peçam pra decidir um rumo, senão vou ao fundo.
Perco-me num vazio onde moram outros tantos,
Cansados de não perceber se pertencem a uma caixa.
Preferem calar aquela voz que entoa aos gritos cantos
A torcer pra que do quadrado criem um círculo que encaixa.


Depois da declaração no papel, a sua lucidez desacredita a existência das vozes alojadas na sua cabeça. Assim, percebeu que Bernardo nunca tinha existido e que a sua fuga tinha sido introspetiva. Não havia forma de fugir à sua verdade. Todos os seus episódios de compulsão sentimental eram seus, não de indivíduos que se cruzaram na sua história mas de entidades que são a sua narrativa.

A partir desta descoberta, tinha mais controlo das representações das suas diversas individualidades e deixou de procurar a cura pois ela sempre esteve presente só que, tal como ele, aparecia personificada sob a forma de poesia.
Desde esse dia, acordou com todos os poemas a fazerem sentido por muito que a sua existência, tal como a nossa, esteja condenada à dúvida:

Monumental é a ligação que estabeleço com o pape
E se hoje está amargo, amanhã já lhe dou uma dose de mel
Colossal é sentir o que escrevo numa lógica incongruente
É que hoje vejo sol e tempestades neste cérebro divergente.
Carente de um recetor que saiba nas entrelinhas ler
Tudo aquilo que nem ao reflexo me atrevo a dizer
Pois é de um todo de sonhos, insónias e insegurança
Que quase me curo com o lápis a redigir esperança.

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