Passar uma tarde na urgência de um hospital pode ser muito enriquecedor. Consegui apreender muito do que somos — complexos.
Há uma tendência para olharmos os outros pacientes como concorrência a abater. Analisamos disfarçadamente a condição em que se encontram, tentando descortinar se a fita vermelha ou laranja conseguida na triagem é ou não legítima. Consideramos sempre uma enorme injustiça o nosso troféu ser apenas amarelo ou verde.
Os “aaaaí” prolongados e repetitivos sobem de tom quando passa um enfermeiro. Sempre que conseguem captar um olhar disponível, desfilam os portefólios de maleitas e contributos para a indústria farmacêutica, na esperança que se destaquem entre os demais.
Tento assumir uma expressão de indiferença, por muito que isso contribua para o aumento de horas passadas neste espaço revestido a lixivia.
24 horas depois, sou atendida por robots.
Já cansada, pronta para entrar no autocarro, deparo-me com os olhares maléficos de senhoras que querem roubar-me o lugar. Reparo que há muitos assentos vazios e prossigo viagem despreocupada. Esqueço-me que fui mal educada — afinal, aquele é, desde 2003, o lugar da D. Odete.
Recuso-me a pegar em algo tão determinado e enriquecedor como o envelhecimento e a torná-lo em algo defeituoso e penoso. Não a ajudo a determinar a sua condição, pelo contrário. Não alinho baixinho ou devagarinho, com muitos “se faz favor”.
A não ser quando são precisos, empaticamente falando.