Desacelero cada vez que me aproximo de uma passadeira e olho sempre para os dois lados. Confiro se vem alguém antes de voltar à marcha.
E raramente acontece. E raramente veem o meu gesto. E raramente leem as minhas intenções. Por isso, são raros os momentos em que se deparam com a minha bondade.
Mas:
Uma vez tive de parar em cima da passadeira.
Acelerei depois de já ter deixado passar trinta familías.
Enquanto olhava, pela terceira vez, para a esquerda, um senhor passou a correr pela direita.
Depois de ouvir uma buzina, conferi fugazmente se algum peão se aproximava.
E aí:
Uma turma inteira teve de atravessar fora das linhas.
Recebi olhares maldosos de quem viu uma má condutora em ação.
Traumatizei um homem que praticava exercício físico.
Fiz com que uma senhora passasse a confirmar setenta e oito vez se é seguro atravessar.
Por que é que nunca temos palco nos momentos em que brilhamos?
Somos sempre atropelados pela vida real que esmaga qualquer brio pessoal.
A humildade aparece com ações erradas, por muito esporádicas que sejam. Marcam até que te esqueças que a norma está correta e que os acasos estão à espreita.
Será que um dia a empatia é normalizada, ao ponto de sermos incapazes de praticar o bem sem a sensação de superioridade?