Não sei se acredito em vocações, em termos nascido com um propósito em termos profissionais, de inconscientemente termos uma direção precisa que vai sofrendo atropelos porque deixa de ser ouvida.
No entanto, caio num paradoxo muito rapidamente pois a escrita encontra-me sempre. Quando era criança pediam-me reflexões mas eu insistia em começar com “Era uma vez”. O sol era uma pessoa e as nuvens eram o seu inimigo. Nisto começava uma batalha com o vento e o plot twist era sempre inacreditável. Por alguma razão os meus textos lá foram despertando a atenção da professora. Será que dava adjetivos à relva que mais ninguém dava? Juntava as palavras de forma peculiar? O que era? Aliás, o que define um texto considerado “bom” e o que o separa de um texto “mau”?
No momento em que abri o tão desejado e-mail com as colocações para a faculdade dei por mim a pensar que eu não queria ler aquele e-mail desde o dia em que me inscrevi, mas sim desde uma aula qualquer da primária em que o sol despertou o meu lado mais irracional e um desejo incontrolável de escrever numa sebenta cinzenta. Tudo porque um dia apareceu uma professora que não se preocupava apenas com a correção dos erros gramaticais ou com a estrutura. Percorri um caminho que ansiava desde que aprendi a juntar letras e a inventar personagens.
Apliquei-me, até, em matemáticas que não me pertenciam e decorei histórias de outros países para aprender a minha.
Em três anos garanti um lugar onde pertencia. Não restavam dúvidas que fui bem levada pela falácia que nos comanda até aos 18 anos: saber o que quero fazer durante décadas. Consegui ser submissa como o sistema pede e poucas foram as alturas em que duvidei.
Com a chegada do jornalismo, descobri histórias com valor-noticia, pessoas com opiniões dissemelhantes sobre o mesmo assunto e um forte entusiasmo em juntar toda a informação e decidir-lhe o rumo, ainda que totalmente condicionada pelas regras apreendidas nesta profissão.
Ainda assim, continuo a gostar de histórias em primeira mão — as minhas. Tornam-se mais imprevisíveis até porque o fado delas pode ser apagado e reescrito, vezes sem conta. Pode nem fazer sentido, ser demasiado mirabolante – é um texto que não vive preso a fórmulas do mundo do senso comum.