Quando pisam a escola pela primeira vez com a mochila cheia de sonhos e o olhar perdido com tantos estímulos diferentes, é-lhes logo perguntado:
Então, o que queres ser quando fores grande?
O leque de respostas é pequeno e espelha a falta de conhecimento das verdadeiras paixões. Com 6 anos, sabem brincar com legos e traduzem essa ação para uma profissão relacionada com a engenharia.
Nas meninas, é bom que a resposta corresponda à norma. Se estiverem ocupadas a pentear os longos cabelos das bonecas, automaticamente é dada a associação à profissão de cabeleireira.
À medida que crescem, o leque abre-se. Já não querem ser apenas engenheiros, mas algo bem específico que os demarque dos demais: engenheiro, sim. Mas civil. Ou informático, vá.
Caso o desejo de lavar cabeças se mantenha, entretanto já subiu um degrau na escada da ambição, pelo que é necessário abrir um cabeleireiro. Isto é, serem empresárias.
Finalmente, a idade adulta – com sonhos numa mão e um contrato na mala, sentam-se na cadeira que danificará a postura com o mesmo olhar com que foram recebidos na escola primária.
Passado uns anos, percebem que não queriam assim tanto seguir aquele rumo. Mas agora é tarde para mudar. Aliás, toda a gente sabe que a partir dos 35 é proibido.
Por isso, escolhem ser infelizes enquanto proferem frases do género:
Podia ser pior.
Haja saúde.
Ao menos cai direitinho no fim do mês.
Enquanto os comprimidos entorpecem a depressão de não se reconhecerem no espelho, o sonho mirra com a falta de incentivo daqueles que os rodeiam. Nessa altura, seria importante questionar:
O que queres ser quando fores mais velho?
Porque vão sempre a tempo. Enquanto houver hoje, há tempo.