Todos os dias aprendo a esperar melhor — não dos outros, atenção. Quer dizer, implica sempre os outros. Mas os outros não têm culpa.
Mas afinal, quem é que podemos culpabilizar pelo trânsito?
Por muito que me prepare para sair de casa com mais antecedência, por muito que tome o pequeno-almoço em três garfadas, por muito que nem escove os dentes, o resultado é sempre o mesmo: atraso crónico.
Entro no carro, suspiro e aposto na meditação guiada pela rádio. Os efeitos são sentidos rapidamente — uma vontade mínima de sorrir, uma vontade crescente de chorar e um apreço estagnado pela rotina.
Rumo à autoestrada, reparo que as filas de carros já se acumulam. Serei apenas mais uma alma perdida no meio de tantas, totalmente mecanizada através do ato da condução.
A meio do destino, reparo que não me lembro de ter posto a terceira, quarta ou a quinta mudança. Talvez por não o ter feito, dado que o carro não aguenta essas loucuras quando só avança meio centímetro cada vez que arranca.
Cheguei. Demorei mais sete minutos do que ontem porque em vez de ter avistado dois acidentes, presenciei cinco. E toda a gente sabe que temos de olhar penetrantemente para os condutores, só para verificar se estão bem de saúde.
Arrastro-me do carro, já a imaginar o cenário catastrófico ao final do dia.
Se tudo correr bem, chego a casa ainda hoje.