Dores de crescimento

Sempre me achei pequena.

Quando era criança, encolhia-me para não perturbar os outros. Silenciava a minha voz para não incomodar as conversas que eram tão mais interessantes do que qualquer coisa que eu pudesse acrescentar. Guardava a minha opinião no bolso para que a atenção se mantivesse bem longe de mim.

À medida que a minha personalidade se ia desenhando, havia sempre um conjunto de características que permaneciam inalteradas: o silêncio. A suposta tranquilidade. A vontade de não contribuir para a desordem.

Pelo que me diziam, isto fazia de mim uma pessoa fixe, fácil de lidar e de manter por perto.

Comecei a perceber que, ainda que profundamente mergulhada na minha timidez, conseguia fazer os outros rir — aliás, bastou um riso pouco sonoro para querer ouvir aquela melodia ampliada para o resto da minha vida.

Passei então a escrutinar tudo o que as pessoas à minha volta diziam, na tentativa de criar um raciocínio cómico constante.

Não participava nas discussões e nem sequer ouvia: estava demasiado ocupada a analisar.

Ao entender que poderia encarnar o papel de bobo da corte, saí de uma zona de conforto para entrar noutra — a atenção estava em mim; mas não na Bruna.

Era fácil mascarar a opinião com a piada. Reciclar o que reivindico com uma gargalhada. Mastigar as minhas crenças através da ironia.

A criança permanecia lá. Por muito que já levantasse o dedo, tinha sempre receio das implicações: E se já não quiserem estar comigo? E se as minhas palavras magoarem? E se deixarem de gostar de mim?

O horror — deixarem de gostar de mim.

Achava mesmo que poderia ser homogénea por não ser assim tão vibrante, garrida ou espalhafatosa.

Quando percebi que não poderia ser o PS nas legislativas de 2022, quebrei — e ainda bem.

A partir daí, permiti-me ser maior, mais ruidosa. Sem medo de ocupar espaço, de respirar mais alto, de rir mais alto.

O humor já não é muleta. Não é uma justificação. É quem eu sou.

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