Ontem, ouvi uma senhora a dizer que estava bem, graças a Deus.
A senhora que a ouviu disse que estava igualmente plena e agradeceu esse feito à mesma entidade.
Com dificuldade, tentei perceber qual seria o papel deste ser no estado de espírito de duas pessoas que, por acaso, se cruzaram na rua.
Quando dei por mim, toda a gente à minha volta atribuía o que fazia, sentia ou era a esse mesmo Deus — quer dizer, confesso que estou apenas a assumir que se trata do mesmo.
Retirar o poder do que construíamos e passá-lo a outros é perigoso.
Pode levar-nos a crer que nunca fazemos nada de especial, que não somos assim tão bons ou, se o somos, é porque alguém lá em cima nos guiou ao longo do percurso.
Longe de querer duvidar da fé de cada um, confesso que sinto uma comichão interna a percorrer-me o esófago quando o elogio é recebido com os olhos postos no chão, quando o entusiasmo alheio por algo que criamos nos dá vontade de silenciar o outro ou quando a culpa do brilho é sempre de outro holofote.
Tudo o que faço é graças a mim.
Se estou bem, é graças a mim.
Se estou mal, é graças a mim.
Se consegui, foi graças a mim.
Se sou, é graças a mim.
E tudo isto, por mim.