Quando confiamos demasiado nas nossas habilidades, acontece a demonstração do oposto — uma total inapetência para jogar aquele jogo, ganhar aquele torneio ou fazer aquele estacionamento.
Identifico-me particularmente com o terceiro cenário.
Convencida que havia espaço para dar e receber, nem me preocupei com a largura do ângulo e, simplesmente, fui.
Com uma velocidade convidativa a embates, abracei o para-choques do carro vizinho como se fosse meu filho e quando o larguei vi os pedaços que restavam do nosso encontro perdidos pelo chão.
Aflita, tentei colocar essas peças esmiuçadas no lugar que lhes pertencia há segundos atrás, mas já era tarde.
Perdi.
Achei que era capaz. Confiei. Tentei sem analisar.
Errei.
Mas como a oportunidade de desenvolvimento pessoal estava mesmo à minha frente, agarrei-a (talvez com a mesma força como seria necessário segurar o volante).
Saí do carro, analisei os estragos e fiz a única coisa sensata: não fugir e deixar um bilhete com o número de telemóvel.
Nessa noite, dormi mal. Imaginava como seria o dono do carro, que insultos seriam proferidos, que ameaças seriam ditas no calor do momento.
Até que:
Nada.
Já se passaram dias e nem um telefonema.
O bilhete pode ter voado.
O bilhete pode ter sido retirado.
O bilhete pode ter sido analisado e deitado ao lixo.
O bilhete pode ter sido lido e perdido.
O dono do carro pode estar sem saldo.
O dono do carro pode estar isolado.
O dono do carro pode ainda nem se ter apercebido dos danos e de um pequeno papel branco no vidro.
De tantos cenários, escolho o que realmente me relaxa:
O vento tudo levou.