Nunca entendi muito bem essa coisa do timing até que precisei dele para ler a nossa história.
Sabes, escrevo muito. Quando sinto que não está a fluir, paro. Às vezes apago tudo e nunca deixo que aquela história renasça. Mato-a.
Houve muitos momentos em que achei que talvez te tivesse inventado. Estava decidido: andava a romantizar-te, a imaginar dias que nunca surgiram e momentos que só viriam a luz do dia na minha imaginação.
A culpa? A origem, claro que está. Tenho alma de poeta e uma urgência de saber o que isto do amor. Então invento-o para as personagens que me permitem que lhes dê idades, personalidades e histórias paralelas.
Já vivi muito o amor dessa forma. Até parei de escrever sobre ele pois acho que se torna gasto facilmente. Necessita de muitas reviravoltas para se manter interessante. E foi aí que errei: ao achar que a ficção se teria que assemelhar à realidade.
No mundo em que tantas vezes pisamos os pés no chão com mais força para que ele nos agarre, em que sentimos com o choro a gritar pelos olhos e em que ajustamos o cachecol ao pescoço em dias de inverno para sentir algum tipo de aconchego, há muitos intervalos para viver com tranquilidade.
Não temos de viver à pressa. Agarrar com medo. Conquistar tudo.
Mas de tanto te imaginar, não quis acreditar que estavas à minha frente; talvez por não estares realmente.
Queria que fossemos inteiros e livres, ainda que só tivessemos olhos um para o outro.
Sem dependência. Sem a entrega da chave da felicidade, mas com a certeza de que a partilha desse estado de espírito seria a única forma de o vivermos em plenitude.
Longe dos contos que me preenchem, surgirias tu. Previsível nos teus atos pois andava a habituar-me ao teu carinho. Sensivel na escolha das palavras porque foi a primeira coisa que me atraiu. Apaixonado no olhar que confirmou o sentimento dos dois lados. Focado no toque para que a expressão física da cumplicidade fosse sentida.
Mas, como tantas histórias minhas, esta também ainda não é real.
E agora? Como é que pouso este livro e o coloco ao lado dos outros dois que me deste?