Este ano, era fruta madura.
Estava doce, suculenta, cheia.
Cada dentada deixaria qualquer um com ânsia de mais uma trinca.
A faca que me cortaria estava afiada.
Tal como me tinham contado, foi nesta altura que chegaram os primeiros ventos.
Aliás, bastou um leve abanão na árvore para cair no chão.
Disseram-me que em breve sentiria uma mão a pegar em mim. Mas nunca chegou. Nem a taça. Nem a boca.
Depois, a tempestade levou-me até ao chão e com a força do embate fiquei com mazelas.
Do ponto certo passei do ponto — tornei-me amarela, depois castanha e preta.
Sozinha, rolei até à sombra de outra árvore desconhecida onde se aninhavam outros frutos em decomposição.
Ao olhar para eles, encarei o meu fado.
Ao aceitar que já não sou, permiti-me já não ser.
Permanecerei, aqui, até que me levem.
Sentirei cada picada dos bichinhos que finalmente me provarem.
Até ser nada.