Amar o próximo

Quando somos crianças, tornamo-nos peritos em demonstrar carinho e afeto pelos outros com a partilha de um fone ou de um pacote de gomas.

Aprendemos a gesticular amor com chutos na bola, tranças no cabelo e a divisão de um lanche misto aquecido.

Ao assumirmos que é assim que os outros sabem que gostamos deles, acabamos por recorrer pouco às palavras. Aliás, temos vergonha delas.

Enquanto dentro de quatro paredes o amor se torna, tantas vezes, sinónimo de berros, comida na mesa e a partilha de um veículo, torna-se difícil nadar sem braçadeiras nesse imenso oceano das emoções e dos sentimentos.

Dizer “gosto muito de ti” a um amigo no 7ºano pode ter como consequência um cachaço ou a associação à homossexualidade. Por isso, exercitamos o silêncio.

O companheirismo passa, depois, a traduzir-se em tempo: se estou contigo, é porque gosto de ti. Se fazemos este caminho juntos, é porque aprecio a tua companhia. Se te convido para vires a minha casa, é porque te quero por perto. Se te envio mensagem para estarmos juntos depois do trabalho, é porque o tempo sabe melhor contigo.

Ainda hoje, há amizades que sobrevivem sem a comunicação verbal do que é sentido de ambas as partes. Sabem que sabem. Sabem que sentem. Sabem que é mútuo.

Até que uma das partes desaparece e pensamos em todos os momentos em que um “adoro-te” poderia ter sido proferido. Imaginamos o encaixe perfeito de um “amo-te” naquela noite de céu estrelado.

Quantos confrontos com o fim serão necessários para que berremos o que sentimos uns e com os outros?

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