Hoje, voltei a abrir o armário.
Vasculhei as roupas que cheiram a mofo e olhei-as com os olhos de quem sou hoje.
Separei as camisolas que já não me aquecem da mesma forma e prometi-lhes uma nova vida.
Respirei o pó que se foi acumulando durante duas estações e dissipei-o com o ar frio de inverno.
Voltei a dobrar carinhosamente as saias que já nem sabia que tinha, com o mesmo afeto que se olha para um livro que que é reencontrado na casa de um amigo.
Depois, enfrentei a tarefa herculana de olhar para a pequena mala que concentra toda a roupa que será usada e adotei o minimalismo necessário.
Nem um minuto tinha passado e já dobrava com menos paciência e mais afinco. Menos critério e mais pressa de ver a meta.
Quando finalmente me sentei em cima da mala para que ela fechasse à vigésima terceira tentativa, reparei que a minha camisola preferida tinha ficado de fora.
Nesse momento, ficou provado — os gostos são, realmente, mutáveis.