Auto-estima-te

Quando eramos crianças, esquecíamo-nos sempre de regar o vaso da autoestima.

Andávamos tão ocupados a semear a insegurança com uma mochila cheia de dúvidas que se tornava impossível posicionar a coluna verticalmente.

Sempre que os professores nos tentavam incutir algum tipo de amor por nós próprios, eramos invadidos pela vergonha de nos sentirmos maiores do que os outros. Era tão mais fácil voltarmos a encolher-nos no canto que já tinha o nosso nome e fingirmos que a nossa existência não tinha o mesmo valor que a dos nossos colegas.

Em casa, era complicado encontrar regadores suficientes para todos. Nos melhores dias, usava-se o mesmo para nutrir uma família de 5. Quando chegava a nossa vez de crescer, sobravam apenas umas gotas. Mesmo em dias de sol, a dificuldade em esticar o pescoço para o céu fazia com que o processo de crescimento mirrasse.

Quando chegamos ao fim do ciclo escolar, perguntam-nos quais são as nossas aspirações. Os nossos sonhos. Se temos objetivos — como se a base tivesse existido. Como se o trabalho de estima estivesse completo. Como se auto-descoberta tivesse, sequer, iniciado.

Ao sermos questionados com estas perguntas grandes e cheias de nada, voltamos ao nosso cantinho. Mas agora, vemos que não somos os únicos moradores. Há quem tenha tirado algumas pedras da mochila e as tenha usado para decorar o espaço onde pernoitam. Há quem comece a limar as pedras e as use como decoração. Há quem prefira olhar para elas de forma funcional e crie o fogo que os aquece durante a noite.

Ainda que o processo seja longo e doloroso, foi iniciado. E nunca será solitário.

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