Regressei dos EUA com a mala muito mais cheia.
Trouxe alguns souvenirs e a mesma quantidade de roupa, sapatos e produtos de higiene.
Mas a bagagem de memórias ocupa tanto espaço que precisei de ajuda para fechar os meus pertences.
Ao chegar a casa, com medo que todas essas lembranças se percam ao abrir o fecho, resolvo encostar a mala a um canto e lidar com aquele assunto mais tarde.
A minha memória já me traiu várias vezes — tantas mas tantas vezes que prefiro acreditar que ao não remexer no que o meu cérebro guardou, consigo preservar uma certa objetividade de tudo o que fiz e do que aconteceu.
Por muito que precise de tirar a roupa que está lá dentro, se a lavar deixa de ser a camisola que usei naquele bar em que o João ganhou o bingo. Por muito que precise do meu rímel, deixa de ser a maquilhagem que partilhei com elas no dia do casamento do Gonçalo e que escorreu com as nossas lágrimas ao longo desse dia.
Amanhã trato disso. Temos sempre esse amanhã, não é?