Quando

Quando quiseste participar no Ídolos, a tua mãe levou-nos à Alfândega do Porto e passamos a manhã na fila, à espera que te tornasses no próximo Filipe Pinto.

Quando a minha avó faleceu, foste até ao cemitério.
Olhei para trás, vi-te e quebraste o silêncio daquele momento com uma piada. Passamos pelo supermercado para ir buscar uma caixa de donuts e dois iogurtes proteicos. Fomos para um parque e falamos de tudo menos da morte da minha avó.

Quando a minha psicóloga me pediu para pensar em 5 pessoas que eu gostava muito e em coisas que elas tivessem feito que eu tivesse gostado pouco, usei-te como exemplo. “Às vezes só quero desabafar e parece que ele fica automaticamente do outro lado”. Hoje, é uma das características que mais tenho saudades. Essa capacidade de estar dentro e ser de fora.
Quando ela me pergunta “Bruna, isso faz com que goste menos do Vasco?” a resposta era óbvia. “Então porque é que acha que podem gostar menos de si se errar?”. Caraças, apanhaste-me.

Quando conseguimos ter a tarde livre no mesmo domingo, fomos até Matosinhos comer açai, ver o mar, contemplar o pôr-do-sol, falar de tudo e de nada e jantar pizza.
No fim, concluíste que falaste muito mais do que eu e que da próxima vez não poderia ser assim. Como se isso fosse medido. Como se isso tivesse importância.

Quando o João fez anos, pernoitamos os dois mais uma noite na casa que ele arrendou. Quiseste ficar ainda mais uma noite. Eu poderia ter ficado, mas não quis. É tão fácil desejar aquela noite agora. Mesmo que fosse apenas uma noite em que cada um ficasse no seu canto a comer tostas de queijo.

Quando dói, ainda te procuro.
Quando saio à noite, ainda sinto o teu cheiro.
Quando caminho pela rua, ainda sou capaz de jurar que te vi.
Quando me esqueço, já não me culpo.

Sei que ainda vou ter tantas histórias para te contar. Erros que cometi. Pessoas que conheci. Atuações em que te procurei. Concursos que perdi. Viagens que colecionei. Beijos que dei. Cães que adotei. Paixões que vivi. Textos que nunca irias ler de qualquer forma porque “oh, é muito longo.”

Mas escrever-te será sempre a melhor forma de te contar. De me sentar na cadeira que tens no terraço. De te continuar a abraçar. De te preservar.

E nos dias em que isso parecer pouco, converso ao lado dos teus ramos e deixo que as minhas lágrimas te sirvam de alimento.

“Cry if you must but laugh more because laughter was our thing. Sleep if you must but walk more because in those woods I roam. Grieve if you must but live more because you are not alone”.

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