Sombras

Que chato.

Não me apetecia nada sentar ao lado da minha sombra.

Olhar para ela valida a sua existência; daí que cerrar os olhos para o sol se torne menos incómodo.

Quando ela me obriga a ficar, reparo que tem crescido. Não sei quem é que a rega e a alimenta nas minhas costas. Ou se são as minhas costas que a fazem expandir.

Diz-me para ficar. Em silêncio.

E fico — em silêncio.

O desconforto lava-me em lágrimas.

Quero levantar-me para fingir que tenho coisas para fingir. Assuntos para tratar. Comidas para fazer.

Fazer: é essa a minha resposta a este silêncio que partilho com a escuridão.

Se parar, ela ocupa o jardim todo. Sufoca-me. Afoga-me.

Já li que um dia me vou sentar sem pensar duas vezes no que aquilo significa. No que tenho de levar daquele encontro. No que tenho de fazer que é assim tão urgente.

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