Como a Lua

Acordamos presos à cama, almoçamos com fé no resto do dia, conduzimos as seguintes horas em piloto automático e adormecemos com o peso de sabermos que tanto mais poderia ser feito.

Ajustamos as expetativas de cada fase de acordo com o que é esperado de nós — como se houvesse uma listagem entregue a cada recém-nascido que precisa de ser cumprida até ao dia em que a nossa presença por estas andanças deixe de fazer sentido.

Há quem escolha folhear essa lista a meio e regressar ao início mais tarde, sem qualquer intenção de a concluir.

Cada vez que me esqueço desse guia, consigo pisar mais a areia. Sentir com mais força a água a gelar os tornozelos. Até me dou ao luxo de deitar na praia sem pensar no jantar que, eventualmente, será encadeado na mecânica desse dia.

Cada vez que fico presa a uma conversa, esqueço-me que é quarta-feira. O amanhã não existe enquanto o meu amigo me explica o porquê de doer.

Sou tão presente que até apago o que fiz no dia anterior; que até me esqueço que os ponteiros continuam a girar.

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