Quando lhes morrem

Os dos outros também lhes morrem.

Quando descobrimos, não se abre um buraco. Não se cria uma úlcera. Não se chora por eles.

Chora-se pelos nossos.

Choramos a morte de uma parte da pessoa que está viva.

Damos a mão ao fim que ela encerra.

Deixamos bilhetinhos na porta.

Fazemos o almoço que ela mais gosta.

Talvez assim o buraco comece a fechar na próxima segunda-feira. Talvez se encolha ao ponto de não ser visto a olho nu.

Quando os dos outros morrem, percebemos que os nossos também vão um dia. E que seremos, para os outros, esses outros.

Que a nossa porta ficará impedida com ramos de flores. Que as palavras repetidas ao expoente da náusea serão ditas. Que nos lembraremos que afinal isto tudo anda rápido.

Até ao dia que formos o motivo dessa tristeza que aglomera, choremos-lhes.

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